   Marcos Rey

  NA ROTA DO PERIGO



       http://groups.google.com/group/digitalsource





       TEXTO
       Editor
       Fernando Paixo

       Assistente Editorial
       Carmen Lucia Campos

       Preparao dos originais
       Jos Roberto Miney
       Gisiane Maria da Silva

       Suplemento de Trabalho
       Antnio Carlos Oliviere



       ARTE
       Edio
       Ary Almeida Normanha

       Capa e ilustraces
       Daniel Muoz

       Diagramao
       Arte-final
       Fukuko Salto
       Antonio Ubirajara Domiencio

       Composio. paginao em vdeo
       Jos Anacleto Santana
       Edison Batista dos Santos













       ISBN 85 08 038682


       1991
       Todos os direitos reservados pela Editora tica S.A.
       Rua Baro de lguape, 110 - TeI.: PABX 278-9322
       C. Postal 8656 - End. Telegrfico "Bomlivro" - S. Paulo







  Na rota
  da emoo com
  Marcos Rey





       O mais novo livro do consagrado autor de O rapto do Garoto de Ouro, Sozinha no mundo e de tantos outros sucessos tem todos os requisitos de um bom filme.
Voc vai ler e "ver" ao mesmo tempo. E sobretudo vai emocionar-se, torcer, a cada lance, numa sequncia sempre envolvente. Captulo a captulo, a trama vai lev-lo 
at um final surpreendente.
       Alm de Ton, um tpico jovem dos dias de hoje, voc vai conhecer tio Waldo, um marginal engraado, que mostrar ao sobrinho um mundo menos conhecido e muito 
perigoso. Conhecer tambm outros tipos marcantes: Juliano, barman do badalado bar Paradise, que parecia ser um bom sujeito; Antero, padrasto de Toni, cuja ambio 
no tinha limites; Silvano, filho de Antero, rival de Toni nos amores; Borges, o homem da mancha preta, personagem sado de um pesadelo; e trs destacadas figuras 
femininas: dona Amlia, me de Toni; Raquel, uma garota para quem as aparncias contavam muito, e Virgnia, ingnua mas at certo ponto.
       A "cmera" deste livro conduzir voc a uma variedade de ambientes dominados por luzes ou sombras: sales de sinuca; quartos de hotis baratos; o animado 
bar Paradise; uma enfermaria de hospital; restaurantes finos; um desmanche clandestino de carros... Enfim, cenrios da metrpole sucedendo-se velozmente.
       Prepare-se. Nas pginas seguintes voc vai comear a "ler" um filme cheio de aventuras, ou, se quiser, a "ver" um livro emocionante.
       
       
       
       
       
       
       
       
       
     SUMRIO
     
       1. Tchau, me: ... 06
       2. Aqui no falta nada ... 06
       3. Toni: paisagens e ...  07
4. Ainda o passado visto do nibus ... 09
5. ltimas paisagens, ltimas lembranas ... 10 
6. Tio, sou eu, o Toni ...12
7. Mgicas sobre um pano verde ... 13
8. Boas notcias ... 15
 9. A perigosa arte da enganao ... 16
10. Uma breve visita ao hospital ... 19
11. Sozinho no planeta ... 21
12. Paradise ... 22
13. A curto matinal ... 24
14. Tenso em Vila Grande ... 27
15. Um apartamento e tanto ... 28
       16. Deliciosa quinta-feira ... 29
        17. Breve ida  Vila Grande ... 30
        18.        O destino Tonia partido contra Toni ... 31
        19.        Na pista de Toni ... 32
        20.        A moa da caixa ... 33
        21.        Um adeus sem palavras nem acenos ... 33
        22.        Chorar faz bem ... 34
        23.        O que houve? O que houve? ... 35
       24.  procura de Toni ... 37
        25.        Dona Amlia sofre, sofre, sofre ... 38
        26.        Toni entre milhes ... 39
        27.        O passado ainda no passou totalmente ... 42
        28.        Algum que chega feliz ... 43
        29. Um susto maior que o dia ... 45
        30.        O homem da mancha preta ... 45
        31.        O medo s vezes aproxima as pessoas ... 49
        32.        Areias movedias ... 50
        33.        O buraco no tempo ... 51
        34. Um interurbano para Vila Grande ... 53
        35.        A estrada ... 54
        36.        Virgnia: dvidas ... 55
        37.        Uma oficina suspeita ... 55
        38.        Volta  Vila Grande ... 58
        39.        O reencontro ... 58
        40.        Pondo tudo em pratos limpos ... 61
        41.        Uma deciso definitiva ... 63
        42. A hora da verdade ... 64
        43.        O acidente ... 67
        44.        Enfrentando a situao ... 69
        45.        Cara a cara com Juliano ... 70
        46.        Finais e novos comeos ... 71
       
       
1. TCHAU, ME:
     
       Estou me mandando.
       Vou pra So Paulo mas no esquente no. J sei me virar e estou levando todo o dinheiro que guardei.
       Vila Grande no d mais p pra mim. No pela cidade, que  bacana, mas por tudo que anda acontecendo. Voc sabe, eu e o padrasto, a gente no se d muito 
bem. Aquilo de estudar contabilidade podia ser bom pra empresa dele, pra sua frota de caminhes, no pra mim. No nasci pra fazer contas. E um cano.
       Outro que me enche  o filho dele, o Silvano. Um chato, vive implicando comigo,  provocando. Quem ele pensa que ?
       O jeito que encontrei pra me livrar disso tudo foi esse: dar o fora daqui, cair no mundo.
       Sei que voc vai chorar, mas logo passa.
       Papai vai ser meu anjo da guarda, sempre por perto, aconselhando. E tudo acabar numa boa, como nos filmes de cinema.
       
       Tchau. me!
       
       Toni
       
       
2. AQUI NO FALTA NADA

       Dona Amlia entrou no quarto do filho, viu a carta sobre o travesseiro e adivinhou do que se tratava. As coisas em casa andavam tensas. Depois de ler o que 
Toni havia escrito, ela foi abrir o guarda-roupa do rapaz. Felizmente, ele levara as roupas de inverno. So Paulo  uma cidade fria.
       Na sala, fez uma ligao telefnica:
       - Me chamem o Antero, urgente.
       Um segundo e ouviu a voz do marido, sempre bronqueado, como Toni dizia.
       - Que aconteceu?
       - O Toni...
       - O que foi desta vez?
       - Fugiu de casa.
       - Ah...
       - Meu filho foge de casa e voc s diz "ah..."?
       - O que quer que eu diga? Juzo ele nunca teve mesmo. Mas no se aflija, ele volta.
       - Acha que volta?
       - Acho sim. Vai ser uma lio para ele. Voltar dando mais valor ao que tinha aqui. Depois a gente conversa. Preciso despachar um caminho.
       Dona Amlia saa da sala quando entrou o enteado, Silvano, recm-formado em administrao de empresas, sempre bem-vestido e um tanto pretensioso. Com a madrasta 
era apenas educado e mais nada.
       - Toni fugiu - ela disse.
       Silvano no esboou a menor reao. Com cara de quem um dia ia ser patro, nunca se surpreendia.
       - Deve ter ido atrs de sua garota.
       - Garota? Que garota?
       - Lembra aquela que morava na esquina?
       - Uma que o pai trabalhava numa firma estrangeira?
       - Ele foi transferido e se mudou com a famlia pra So Paulo.
       - Toni no fugiria de casa por causa duma namorada - replicou dona Amlia, como se tivesse acabado de ouvir um absurdo.
       Silvano sentiu que poderia complicar a situao de Toni. No suportava o meio-irmo nem  distncia.
       - Que outro motivo Toni poderia ter, dona Amlia? Ele tinha a vida que pediu a Deus. Por acaso falta alguma coisa aqui?
       Era verdade, admitiu dona Amlia para si mesma. Durante o primeiro casamento e, depois, quando viva, ela e o filho s conheceram aperturas. Jos, o falecido, 
jornalista de cidade pequena, nunca pde dar conforto  famlia e, ao morrer, deixara uma seqencia de zeros na conta bancria. Dona Amlia reconhecia que, com o 
segundo marido, Antero, prspero comerciante, a situao era outra, muito melhor.
       - No, Silvano, aqui no falta nada - respondeu, dando as costas para o rapaz. Ela queria ficar sozinha para reler a carta de Toni.


3. TONI: PAISAGENS E LEMBRANAS

       Toni (Antnio Chaves), dezoito anos, corpo bem-proporcionado, considerado muito bonito pelas garotas de Vila Grande, o que mais se destacava nas tardes de 
rock do clube local, campeo juvenil em vrias modalidades de nado, um dos melhores papos do colgio e dos bares de estudantes, entrou no nibus que o levaria  
capital a passos lentos e soltos. Aquilo nem parecia uma fuga. Melhor agir com naturalidade, planejara; esquecer os motivos, deixar acontecer. Mas quando o nibus 
se afastou da estao rodoviria e ganhou a estrada, as lembranas desfilaram velozes como as paisagens vistas da janela.
       Toni reviu o pai, Jos Chaves, seu primeiro e maior amigo, um sujeito alegre, contador de casos, que nunca se deixava abater por maiores que fossem as pedras 
do caminho. Apaixonado por msicas, livros e filmes, sempre a par dos acontecimentos, planejava um dia trabalhar num jornal da capital. "Hei de conquistar aquela 
bruta metrpole", costumava dizer, empolgando-se. No entanto, a despeito de toda a garra e da boa sade que aparentava, uma dor sbita o levou ao hospital: lcera, 
operao, infeco generalizada, estado de coma e morte. Tudo em poucos dias.
       - E agora? - me e filho perguntaram ao destino. Toni conseguiu emprego como office-boy num escritrio. Dona Amlia, que na mocidade fizera o curso de secretria, 
empregou-se na Transportadora Mercrio, a principal da regio.
       - No agento meu patro - dizia ao filho ao voltar para casa. - Vigia os empregados o tempo todo. Se aparecer outro emprego, peo a conta.
       Mas a vida tem muitos caminhos, veredas, pontes e surpresas. Seis meses depois de ter ingressado na transportadora, Amlia aproximou-se do filho com um ar 
diferente.
       - Toni, o que voc diria se eu me casasse de novo?
       - Desejaria sorte, me.
       - Pois me pediram em casamento. Nem foi bem um pedido, foi um ultimato.
       Toni, surpreso, tentou adivinhar:
       - Algum colega da transportadora?
       - Colega propriamente, no.
       - Quem, me?
       - O patro. Seu Antero. Tambm  vivo.
       Dava para entender.
       - Mas voc no detestava esse cara?
       - Detestava. Mas acabei mudando de opinio depois que o conheci melhor. Ele tem suas qualidades.
       - Pra quando  o casamento?
       - Ele quer pra j, no ms que vem.
       Essa informao complementar tocou o rapaz mais que a primeira. Exclamou quase num protesto:
       - J?!
       Dona Amlia abraou o filho. Se havia alguma precipitao no seu ato, o motivo era Toni. O trabalho como office-boy estava acabando com ele. Mal lhe sobrava 
nimo para estudar  noite. Um sufoco.
       - Voc no precisar trabalhar mais e poder cursar uma boa escola particular.
       - A gente vai mudar daqui?
       - Ser bom deixar esta casa que est caindo aos pedaos. Antero mora naquele casaro da praa principal.  o mais bonito do bairro. Conhece, no?
       - Conheo - disse Toni, sem entusiasmo.
       - Tem uma piscina - ela acrescentou como se deixasse para o final o argumento mais convincente.
       A Toni apenas ocorreu uma pergunta:
       - Ele tem filhos, me?
       - Apenas um, dois anos mais velho que voc. Chama-se Silvano. Acho que vai gostar dele.
       - Por que acha que vou gostar dele?
       - Bem, ele  muito educado. Fez administrao de empresas. Est se preparando para um dia substituir o pai no comando da transportadora.
       O casamento realizou-se sem muita comemorao dentro do prazo combinado. Enquanto o casal viajava em lua-de-mel, Toni adaptava-se  nova casa, quase uma manso. 
Tinha um aspecto imponente, muito espao interior, muita moblia de cores sbrias, cercada por um jardim que ocupava um jardineiro a manh inteira. Ao fundo, a piscina.
       Certo dia, pela manh, Toni observava Silvano nadar, concentrado nas braadas.
       - Quer um suco, seu Toni?
       Era Divina, a cozinheira, gorducha e simptica. O casaro tinha vrios empregados: cozinheira, copeira, arrumadeira, jardineiro e chofer. Toni teve de aprender 
a servir-se deles, a pedir-lhes o que desejava, ele que se sentia, timidamente, um intruso na casa. Jamais imaginara que desfrutar de comodidades tambm requeria 
certo aprendizado. Mas o melhor era chegar ao novo colgio num carro particular, com chofer fardado, que lhe abria a porta. Era demais!
       - Que casamento sua me fez! - exclamou Raquel, a garota mais disputada do colgio, quando o viu chegar no auTonivel do padrasto.
       Podia haver alguma ironia ou maldade na exclamao de Raquel, mas o fato  que passou a dedicar mais ateno a Toni. Ela e outras estudantes.
       A saida do colgio, Toni dava uma carona a Raquel no carro do padrasto e levava-a para casa. Achava isso superempolgante. Um dia, vendo a filha chegar, a 
me de Raquel,  calada, adiantou-se para conhecer o rapaz.
       - Voc  o Toni? Entre um pouco para Toniar um suco conosco. Seu chofer espera.
       Toni entrou, lembrando-se que a mesma senhora, em outra ocasio, quando seu pai estava vivo, torcera-lhe o nariz, certamente por achar que aquele rapaz de 
roupas modestas no tinha status para aproximar-se da filha.
       Muita coisa mudou na vida de Toni, mas mesmo assim ele no perdeu alguns hbitos antigos. Um deles eram os jornais, costume adquirido do pai, jornalista, 
que no saa de casa antes de ler as notcias principais do dia. Seria uma homenagem que o filho lhe prestava? Jornais e livros. Da velha casa, sua me apenas trouxera 
os livros de Jos. O resto, mveis, utenslios de cozinha e roupas, doara ou vendera. Toni lia histrias de pessoas que iam aventurar-se em terras estranhas, que 
envolviam gente comum com tipos inescrupulosos, perseguidos pela polcia, histrias de perigos e armadilhas ameaando a paz de personagens desprevenidos.
       Preso  sua vida estagnada, de sua casa para o trabalho, do trabalho para casa, Jos s conhecia emoes fortes atravs da leitura. Ler, para Ton, era uma 
maneira de se encontrar com o pai a cada livro, a cada captulo. Parecia-lhe que seguiam juntos, trocando impresses, pelos becos, pelas ruelas e pelos perigos de 
enredos agitados, densos e enigmticos.
       Esse apego aos livros do pai, e  lembrana dele, se acentuava com a solido que sentia. Havia os empregados, mas seu Antero j o advertira para no se misturar 
com eles. Patres so uma coisa, dizia, serviais, outra. Por outro lado, Silvano no era seu amigo. S dois anos mais velho, mas agia com ele como se fossem vinte. 
Certa manh em que mergulhou na piscina quando Silvano nadava, ele saiu precipitadamente. A vez que mais se aproximou foi para perguntar de Raquel.
       - Voc j conhecia aquela sua amiga da escola?
       - J - respondeu Toni. - Chama-se Raquel. O pai trabalha numa grande multinacional. Morvamos perto. - E como se pretendesse conquistar-lhe a amizade:
       - Quer que a apresente pra voc?
       - Pra qu?


4. AINDA O PASSADO VISTO DO NIBUS

       Quando Toni concluiu o segundo grau, comearam os desentendimentos com o padrasto. Ele queria que o enteado estudasse contabilidade. Havia uma boa escola 
em Vila Grande.
       - Preferia estudar outra coisa.
       - Se fizer contabilidade ter um lugar garantido na transportadora - argumentou Antero.
       Toni nunca se dera bem com os nmeros.
       - Gosto de jornalismo.
       Seu Antero no era homem paciente. Engrossou a voz:
       - Para levar a vida de seu pai? Um exemplo que no deve seguir.
       A me de Toni, sempre querendo evitar atritos, apaziguadora, a ss com o filho, ponderou que seu marido tinha razo. Como contador teria uma carreira assegurada.
       - Isso eu sei, me.
       - Antero disse que no futuro far de voc o contador-chefe da transportadora. Participar da diretoria.
       - Mas se eu no tenho vocao, me?
       Problema para dona Amlia!
       - Promete-me ao menos pensar no assunto?
       Toni prometeu, embora receando que aquela imposio do padrasto fosse crescer como uma bola de neve. Uma montanha a caminho o ameaava. Para desanuviar a 
mente telefonou para Raquel e marcou encontro.
       Ela apareceu na praa, mais bonita que nunca. J era uma moa. Mas no se mostrava feliz.
       - Oi, Toni, tenho uma pssima notcia.
       - Que aconteceu?
       - Meu pai foi transferido. Estamos mudando pra So Paulo.
       Passearam pela praa, entraram numa lanchonete, ficaram juntos at o anoitecer. Aquilo acontecera numa hora errada. Toni precisava de algm para lhe dar 
foras. S com algum apoio enfrentaria o padrasto. Contou-lhe seu drama.
       - Mostre que tem personalidade - disse Raquel. - No se dobre.
       Personalidade! Soou como uma palavra mgica para Toni.
       - Eu ganho essa parada - assegurou.
       Dias mais tarde um caminho de mudanas estacionava diante da casa de Raquel. Toni compareceu para as despedidas. Quando o veculo j ia partir, a emoo 
dominou Raquel. Na frente dos pais abraou e beijou com ardor o namorado, sem se importar com nada.
       - A gente se v! - exclamou a moa. - Nada ir nos separar. - E repetiu fazendo a palavra vibrar sozinha no espao: - Nada.
       A me de Raquel acenou para Toni, que voltou para casa. Fizera uma descoberta. Antes, era apenas amigo de Raquel. Agora a amava. Mesmo ausente, eIa lhe emprestaria 
coragem para no ceder  exigncia do padrasto.


5. LTIMAS PAISAGENS, LTIMAS LEMBRANAS

       Olhando as paisagens, pela janela do nibus, Toni foi afunilando suas recordaes, at se fixar no choque com o padrasto. Dona Amlia no Tomava partido nas 
discusses, mas era quem mais sofria. Silvano portava-se como mero espectador, desses que apenas assistem, nenhuma emoo. Parecia que estava sendo decidido o futuro 
do filho de uma das empregadas.
       Quando dona Amlia procurava Toni no quarto, ou se encontravam no jardim, o assunto sempre voltava.
       - Toni, faa o que seu padrasto manda. Quem sabe acabe gostando de contabilidade.
       - Eu j disse que quero estudar jornalismo.
       - Em Vila Grande no h escola de jornalismo.
       - Em So Paulo tem muitas.
       Dona Amlia insistia:
       - Meu filho, seja razovel.
       Ele lembrou-se de Raquel.
       - Tenho personalidade, me.
       Um dia o padrasto bateu  porta do quarto de Toni e foi entrando.
       - Antnio... - Sempre o chamava pelo nome. - Matriculei voc no curso de contabilidade.
       - Matriculou?
       - Comea na prxima segunda-feira.
       - O senhor no devia ter feito isso.
       - Eu sei o que lhe convm. Um dia, voc ir me agradecer...
       - Seu Antero...
       O padrasto saiu batendo a porta.
       Momentos depois, a me de Toni entrava no quarto, abatida. J sabia o que acontecera. Devia ter ouvido a conversa.
       - Toni, procure ter pacincia.
       - No quero estudar contabilidade - disse o rapaz como se falasse consigo mesmo. quela altura j no era ao estudo que se opunha, mas ao padrasto. Tudo o 
que ele era ou viria a ser estava em jogo.
       - O que vai fazer? - perguntou a me.
       A situao obrigava-o a Tomar uma atitude. Mas qual?
       - No sei - disse. - S sei que no farei o que ele quer.
       Quando dona Amlia saiu do quarto, Toni estendeu-se na cama. "Estou numa sinuca de bico", pensou. Essa expresso fez com que se lembrasse de tio Oswaldo, 
Waldo, irmo de seu pai, de quem a ouvira. Oswaldo no tinha o preparo do irmo, mas j na mocidade se insurgira contra a vida pacata do interior. Foi para So Paulo 
com a cara e a coragem. Toni apenas o vira duas vezes, quando retornara a Vila Grande para visitar a famlia. Na segunda, uma visita mais longa, Toni j com quinze 
anos, ficaram amigos. Waldo levou o sobrinho a um salo de sinuca e ensinou-lhe a jogar. Toni saiu-se to bem com o taco e as bolas que arrancou aplausos do tio. 
Quando ele partiu, o rapaz voltou a praticar na casa de um amigo que possua uma mesa para o jogo. Agora lembrava-se claramente do tio: um solteiro sem problemas 
aparentes, falador e alegre, sempre referindo-se a So Paulo como um cenrio de filmes de aventuras. Ele vivia sem temer riscos, e seu irmo, Jos, invejava sua 
coragem.
       - J sei o que vou fazer - decidiu Toni em voz alta.
       Quando o pai de Toni morreu, Waldo no compareceu ao enterro, mas mandou uma carta bem sentimental, em que comunicava seu endereo, caso precisassem dele. 
Ainda existiria essa carta?
       No dia seguinte  deciso, aproveitando a ausncia da me, que fora fazer compras, Toni entrou no quarto dela. Cautelosamente abriu suas gavetas  procura 
da carta. Foi encontr-la entre outras, presas por um elstico. Decidiu lev-la. No haveria pista de seu destino.
       No fugiu naquele dia, mas numa sexta-feira, tendo na vspera enchido de roupa a velha mala que pertencera ao pai. Na quinta, Silvano, encontrando-se com 
Toni, perguntou para espica-lo:
       - Ento vai mesmo estudar contabilidade?
       - Vou - respondeu Toni prontamente. - Seu pai me convenceu.
       Silvano deu um passo alm e parou para fazer outra pergunta:
       - Tem recebido notcia daquela garota, a Raquel?
       - No - respondeu Toni. - Nunca mais soube dela.
       Aquela seria a noite mais longa da vida de Toni. No conseguiu dormir. S ao amanhecer saberia se realmente teria disposio suficiente para pegar a mala 
e caminhar at a estao rodoviria.



6. TIO, SOU EU, O TONI

       Toni chegou tenso  rodoviria paulistana. J no adiantava enumerar os motivos do seu gesto nem tentar prever o futuro. O presente, feito de matria concreta, 
estava ali. Como no sabia conduzir-se na cidade, chamou um txi e deu ao motorista o endereo de tio Waldo.
       - Chegamos - informou logo o chofer.
       Tio Waldo morava perto do centro, num edifcio alto e largo, recortado por dezenas de janelas estreitas. A metade da populao de Vila Grande caberia no edifcio. 
Ele vivia no 15 andar. Toni saiu do elevador e viu-se num corredor sem fim e escuro. Com dificuldade, indo e vindo, localizou o apartamento 1.515. Apertou a campainha. 
S na terceira vez ouviu uma voz rouca:
       - Entre!
       Toni entrou; era um apartamento de um s cmodo, ainda mais escuro que o corredor e quase sem mveis, recendendo a lcool. Um homem de meia-idade, barba por 
fazer, estava estendido na cama, com palet e sapatos.
       - Trouxe as bebidas? - perguntou, como se algum perdido no deserto, sedento, encontrasse um beduno. Como no obteve resposta, moveu-se na cama. - Voc no 
 o moo do bar?
       - No - respondeu Toni. - O senhor  meu tio Waldo?
       - Tio Waldo? - admirou-se o homem deitado. - Se sou tio de algum, no me lembro disso. E voc, pasmado, quem ?
       - Sou seu sobrinho Toni. Antnio. O senhor nos visitou duas vezes em Vila Grande.
       Waldo nada disse, observando a mala que Toni trazia.
       - O que faz com essa mala?
       - Deixei o interior - respondeu Toni, formal.
       - O que houve l? Terremoto?
       - Fugi de casa, tio.
       Waldo ergueu-se imediatamente da cama e aproximou-se do sobrinho. O cheiro de lcool veio com ele.
       - Onde pretende morar? Os aluguis so carssimos nesta maldita cidade. Tem algum encosto?
       - No, tio.
       - Engraado! Soa estranho me chamarem de tio. Por que fugiu de casa, garoto?
       - Meu padrasto queria que eu estudasse contabilidade.
       - E isso  ruim?
       - Eu preferia outro curso.
       20
       - Mas ele no  um cara cheio de grana, que tem caminhes, casa com piscina e tudo o mais?
       - ...
       - E virou as costas pra uma mamata assim? Pirou, garoto?
       - No estou interessado em dinheiro - replicou Toni, altivo.
       - Ento est interessado em qu?
       Toni ficou algum tempo calado, enquanto o tio o perturbava com um longo olhar de curiosidade. Para Toni era outra pessoa, no o tio que visitara a famlia 
em Vila Grande. A barba, por sua vez, causava pssima impresso. Seu desejo naquele momento era o de ir embora sem se despedir.
       - Espera arranjar emprego aqui?
       - Eu no vim para morar com o senhor - disse Toni, j certo de que era esse o receio do tio.
       Waldo puxou um cordo junto  janela, permitindo que entrasse um pouco de luz. Depois pegou uma garrafa, derramou um tanto num copo e levou-o  boca. Toni 
permanecia em seu lugar. Nem ao menos descansara a mala no cho.
       - A vida na cidade  dureza - disse ao sobrinho. - Sabia disso?
       - Sabia.
       - Se eu tivesse um parente rico me colava nele, garoto. Voc deu um pontap na sorte. Seu pai, l onde estiver, deve estar pensando isso tambm. Emprego... 
Nunca tive um decente. - Mas admitiu: - Na verdade no procurei muito.
       Toni, decepcionado, comeava a dar razo ao tio. Agira precipitadamente?
       - Acho que vou andar por ai - disse.
       - Tenho algum salame no armrio. Como  mesmo seu nome?
       - Ton, de Antnio.
       Waldo abriu um armrio carcomido e espiou.
       - Pensei que ainda tivesse. Devo ter comido o salame ontem  noite.
       Toni nem tomara o caf da manh.
       - Tem um restaurante por aqui?
       - Estou duro, garoto.
       - Eu pago - disse o rapaz.
       Waldo olhou para o sobrinho como se fosse para um generoso Papai Noel. Meio incrdulo, perguntou:
       - Trouxe algum dinheiro de casa?
       Toni retirou do bolso interno do palet sua carteira e exibiu-a. Tio Waldo no disse mais nada: precipitou-se para fora do apartamento fazendo sinal para 
que o rapaz o acompanhasse.


7. MGICAS SOBRE UM PANO VERDE

       Era um enorme restaurante popular, onde a freguesia comia muito e apressadamente. Almoo comercial, espremido entre dois perodos de trabalho. Waldo no acompanhava 
esse ritmo. Como no tinha emprego, dispunha de mais tempo.
       - Paga uma cerveja?
       - Tudo bem.
       Diante dum prato cheio e da cerveja, Waldo tornou-se mais amigvel. Tentou lembrar as visitas que fizera a Vila Grande.
       - E aquela bela churrascaria? Comi l vrias vezes. Ainda existe?
       - Existe, sim,  a Primor, perto do salo de sinuca. Lembra-se do salo? Foi onde o senhor me ensinou a jogar.
       - Ensinei voc a jogar sinuca? - admirou-se Waldo.
       - Ensinou. Nas frias passadas joguei muito na casa de um amigo que tem uma mesa.
       Waldo interessou-se:
       - Voc joga bem?
       - Acho que tenho jeito. Minhas mos so firmes. E o senhor, ainda joga?
       Waldo no respondeu, mudando de assunto.
       - Se for para um hotel vai sair muito caro. Pode ficar na minha quitinete at resolver o que fazer. J dormiu no cho?
       - Quando escoteiro, num saco de dormir.
       Waldo tinha outra importante pergunta a fazer:
       - Poderia me comprar uma garrafa de conhaque? Devolverei o dinheiro assim que puder.
       Toni dormiu no apartamento do tio sobre um pano xadrez. Ainda bem que no fazia frio, pois l no havia cobertor. Pela manh tomou caf puro, que restara 
de uma garrafa trmica, e saiu para dar uma volta. Tio Waldo s acordou ao meio-dia. Toni j havia retornado. Abriu a janela e descobriu que durante a noite o tio 
Tomara a metade da garrafa de conhaque.
       - Tem dinheiro pro almoo? - perguntou.
       - Claro, tio.
       - No se preocupe com os gastos, eu devolvo.
       Voltaram ao restaurante da vspera e desta vez tio Waldo tomou duas cervejas.  sada, disse-lhe:
       - Vamos nos distrair um pouco.
       Bem perto dali ingressaram num salo de bilhar. Aproximaram-se de uma mesa cujos jogadores haviam terminado a partida. Waldo pegou um taco.
       - Veja bem isso - disse ao sobrinho.
       Que habilidade! A cada tacada encaapava uma bola. Se a bola no estivesse em posio favorvel, na direo da caapa, ento mostrava tudo o que sabia. Encaapava-a 
com uma cortada, fazendo-a girar pela mesa at entrar. Parecia que em cada caapa havia um m que atraa as bolas.
       - O senhor  um mestre!
       - Agora vamos jogar de verdade. - E gritou para o interior do salo: - Tempo!
       Veio um empregado, que arrumou as bolas em suas posies: a branca, as vermelhas, a amarela, a verde, a marrom, a azul, a rosa e a sete. E marcou o tempo. 
Seria uma partida paga, para valer.
       - Comece, Toni!
       O rapaz deu a primeira tacada, mas, nervoso, fez espirrar o taco. Tio Waldo ensinou-lhe a passar giz na ponta do taco e a polvilh-lo com talco, para no 
escorregar. Aprendida a lio, Toni encaapou uma vermelha.
       - Nunca se deixa a cama feita para o adversrio. Voc me deixou a cinco na boca.
       Numa seqncia de tacadas. Waldo acabou com as vermelhas. Toni apenas tornou a encaapar a amarela e a marrom. Waldo encaapou todas sem o menor esforo.
       E mesmo fingindo espirrar o taco, ps a sete no buraco.
       - Vamos jogar outra.
       - Nem tem graa, tio. O senhor ganha de mim at com uma venda nos olhos.
       Alguns homens acercaram-se da mesa. Em todos os sales sempre h mais curiosos, sapos, que jogadores. Toni divertiu-se em imaginar como ficariam admirados 
com a mestria do tio. Era um craque!
       Toni deu uma tacada e encaapou uma bola. O taco de Waldo espirrou. Outra encaapada de Toni. O tio caprichou, caprichou e perdeu uma que estava pedindo para 
entrar na caapa. Ele parece estar fingindo que joga mal, pensou Toni. Em seguida Waldo reagiu, ultrapassando Toni no marcador, meio cordo a mais. Voltou, porm, 
a desperdiar novas tacadas, acabando por perder a partida, o que provocou risos de satisfao  pequena platia, que torcera para o rapaz.
       - Vou lhe pagar - disse Waldo, fingindo entregar dinheiro a Toni. - Agora, d o pira, garoto. - E voltando-se ao pblico: - Algum quer jogar? Hoje estou 
com vontade de perder dinheiro. Recebi meu salrio.
       Um dos presentes apresentou-se.
       - Topa isso? - perguntou, acenando com o dinheiro na mo.
       - Topo - disse Waldo.
       Toni afastou-se, mas no saiu logo do salo, ficou  porta. Percebeu, mesmo  distncia, que o tio procedia como na partida que jogaram: deixava espirrar 
o taco, desperdiava oportunidades e quando encaapava uma bola parecia fruto do acaso. Voltou para o apartamento.
       Tio Waldo s regressou  noite. Trazia vinho, po, queijo, salame, mortadela e um sorriso.
       - Quanto lhe devo, garoto?
       - A mim no deve nada, tio.
       - Se precisar de algum pode me pedir. O trabalho hoje rendeu.
       - Ganhou muito?
       Ganhei daquele e de outro fregus. Dois patos.
       - O senhor fingiu que no sabia o tempo todo?
       - Isso s vezes d na vista. Fingi que no estava com sorte. A patiao  uma arte, garoto. Quem no sabe representar se d mal.
       - Patiao, o senhor disse?
       - Significa enganar os patos, os trouxas. Sempre aparecem patos com dinheiro nos sales. Uns at que jogam bem. Patiador tambm pode ser patiado. Entendeu?
       - E esse truque sempre d certo? - perguntou Toni, querendo saber tudo sobre as atividades do tio.
       - Quando se tem um parceiro, um farol, aquele que ganha da gente e sai, a a coisa no falha. Felizmente agora tenho um parceiro. Os bons tempos voltaro.
       - Que parceiro, tio?
       - Voc, garoto. Vamos trabalhar juntos. Acabou a poca das vacas magras. 


8. BOAS NOTCIAS        

       Me:
       
       Estou gostando muito dc So Paulo.  Moro com o         tio Waldo. Ele  um cara superbacana e gosta muito de mim. Mexe com uma poro de coisas e tem boa 
freguesia. Eu o ajudo e aprendo muito com ele. No esquente a cabea, no. Tudo est indo muito bem. Desculpe no dar meu endereo, que poderia cair nas mos do 
padrasto e estragar tudo.
       
               Tchau, me
       
       Dona Amlia abriu a gaveta onde guardava cartas. A de Waldo no estava l.
       - Notcias do Antnio? - era seu Antero que perguntava, entrando inesperadamente no quarto.
       - Sim, escreveu.
       - Como est se arranjando?
       - Morando com seu tio Waldo. Parece que se do bem.
       - No  aquele que no gostava muito de trabalhar?
       Dona Amlia teve de admitir que sim, mas fez um retoque na confirmao.
       - Waldo no  mais o mesmo. Criou juzo.
       - Mas como sabe disso se nunca mais tiveram contato?
       Dona Amlia saiu do quarto: no poderia responder. Ela sempre dissera a Jos que seu irmo era um caso perdido.


9. A PERIGOSA ARTE DA ENGANAO

       Waldo e Toni passaram a sair todas as tardes e algumas noites para fazer aquilo que o tio chamava respeitosamente de "o nosso trabalho". O processo era sempre 
o mesmo. Havendo platia, Toni ganhava uma partida e desaparecia do salo. Agradava a todos o espetculo de um rapazinho arrasar um coroa no pano verde. Era divertido 
e muitos at aplaudiam. Toni pegava o dinheiro da falsa aposta e sumia. Ento os patos caam no conto-do-vigrio do esperto tio Waldo.
       Encontrar incautos, nem sempre presentes, obrigava a dupla a correr inmeros sales. Waldo dizia que a pacincia era uma grande virtude, fosse qual fosse 
o gnero de servio. s vezes Toni cansava-se, porque a procura de ingnuos os levava aos quatro cantos da cidade. Andavam muito de nibus e de metr, indo atrs 
de sales distantes. Mesmo a cidades vizinhas eles iam s vezes. A dupla no poderia ficar conhecida, manjada, como dizia Waldo. O encontro dos dois teria sempre 
de parecer casual, como se representassem uma farsa. Toni cansava-se. Passar parte das horas do dia num salo enfumaado a ouvir apenas o rudo do choque das bolas 
sem noo da passagem do tempo chegava a ser irritante. Por outro lado, as pessoas enganadas, os patos, que chegavam a perder muito dinheiro, causavam pena. Waldo, 
porm, no se condoa, pois no seu modo de pensar a vida era uma guerra entre espertos e tolos. E orgulhava-se de estar entre os primeiros.
       - Meu padrasto no precisou enganar ningum pra chegar onde chegou.
       - Voc no pode afirmar isso - rebateu Waldo. - O que sabe dos negcios dele? Nada.
       Certo dia Toni leu uma notcia no jornal e procurou interessar o tio.
       - Vai haver um campeonato de sinuca - informou. - Por que o senhor no participa?
       - No estou interessado em trofus - respondeu. - Geralmente no valem nada. Alm do mais, anote, ficando conhecido como jogador de sinuca no poderia ganhar 
meu po como patiador. A pior coisa para mim seria um retrato nos jornais. Espantaria os fregueses...
       A pretexto de fazer Toni conhecer os vrios degraus da cidade, Waldo levava-o s vezes a restaurantes de categoria, freqentados pelo que chamava de a Classe 
A, os ricos. Mas no pagava a conta, prtica que obedecia a certas regras. A primeira delas consistia em escolher uma mesa prxima da porta. A segunda: enquanto 
o garom os servia, Toni teria de dirigir-se ao tio como reverendo, professor ou capito, o que tornava a dupla insuspeita. Era comum, nessas ocasies, tio Waldo 
dizer para que o garom ouvisse: "Estive ontem com o deputado fulano e ele..." A terceira regra cabia numa perguntinha, feita logo a princpio: "Podemos pagar com 
carto de crdito"?
       Terminada a refeio, Waldo dizia:
       - Vamos pedir sobremesa. Quem pede sobremesa logicamente no vai sair j. Mas s pedimos, no comemos. - Ento consultava sem pressa o cardpio e pedia: - 
crpes suzettes, por favor. - Depois dava uma olhada geral na casa. - Eu vou pela direita e voc, pela esquerda. Ande depressa, mas sem correr. Nos encontramos na 
rua paralela. A barra est limpa. J!
       Toni ficou muito nervoso e apenas sossegou ao reencontrar o tio, que palitava os dentes.
       - Tio. l no volto mais.
       - E quem quer voltar? No gostei nada da comida. E viu os preos dos pratos? Ladres.
       Igualmente constrangedor para Toni era acompanhar o tio s feiras. Waldo levava pouqussimo dinheiro e voltava com a sacola cheia: frutas, legumes, frangos, 
peixes. Tinha mos de mgico e uma cara de santo. Toni, o parceiro, ajudava-o conversando com o feirante, para desviar a ateno. Ou ficavam os dois, tio e sobrinho, 
olhando para o cu, encantados com as cores de um inexistente arco-ris. Os feirantes olhavam para o alto e...
       - O senhor nunca fica com remorsos? - quis saber Toni uma vez.
       - Que idia  essa, rapaz? No assaltei nenhum banco. S peguei um pouco de comida. Alm do mais, se os feirantes no vendem tudo, o que sobra apodrece. Ns 
apenas passamos pelas bancas antes que isso acontea.
       Certo dia Waldo foi a uma loja de roupas e vestiu uma que lhe coube muito bem. Enquanto o balconista embrulhava sua roupa usada, ele saiu  rua e misturou-se 
com um pessoal que realizava uma passeata de protesto contra a carestia geral. Contando o fato a Toni, explicou que todas as empresas contabilizam perdas e lucros, 
o que tornava seu ato apenas um nmero num dos livros de registro, sem grande significado.
       Mais de uma vez Toni pensou em abandonar o tio e cuidar da prpria vida. Mas fazer o que naquela cidade desconhecida? E tambm tinha certa pena de Waldo, 
que, graas  parceria, aos golpes que aplicava em dupla, vivia melhor agora. O tio dava-se at ao luxo de uma vez por semana decretar dia de descanso, permitindo 
tempo livre ao sobrinho. Nesses dias Toni escrevia para a me, sempre sem revelar nada, ia a cinemas ou  biblioteca pblica. Ler continuava sendo seu reencontro 
com o pai e a oportunidade de lembrar tempos menos angustiantes.
       Numa tarde, num dos principais sales de sinuca da cidade, de freqncia mais requintada, Waldo pescou com a parceria de Toni seu peixe favorito: um tubaro. 
O incauto era um banqueiro do jogo do bicho, homem poderoso, endinheirado, conhecido e at temido por sua valentia.
       - O nome do cara  Turco. Sempre quis limpar a carteira dele, justamente o que faz com muita gente.
       Turco ficou apreciando a partida entre o tio e o sobrinho. Toni ganhou duas. Turco riu, zombeteiro.
       - Voc no tem cancha pra enfrentar o garoto. Waldo reagiu retirando as bolas da caapa para nova partida.
       - Vamos jogar outra. Quanto quer apostar?
       Toni disse o que lhe cabia:
       - Pra mim chega, otrio!
       - S mais uma rodada...
       - J ganhei o suficiente - rebateu Toni. - At um dia, velho. - E saiu do salo.
       Waldo fingiu-se desmoralizado. Fixou os olhos no Turco.
       - Voc a! Quer jogar?
       - Voc no  taco pra mim.
       - Aposto tudo o que tenho.
       - Lamento, mas vai perder o dinheiro - disse o tubaro, apanhando um taco.
       Waldo s voltou  noite para a quitinete. Assobiando.
       - Como foi? - perguntou Toni.
       Tudo azul com bolinhas brancas. O maior pato que cacei na vida. - E, tirando as mos dos bolsos, jogou um monte de dinheiro sobre a cama.
       - E aqui est sua parte, scio - disse passando a Toni algumas cdulas. - Dez pra voc. Agora vamos comemorar num bom restaurante.
       Foram, realmente, e Waldo at pagou a conta.
       - Acha que tem mais patos naquele salo? - perguntou Toni.
       - Deve ter, mas l s volto no ano que vem.
       - Por qu?
       - Prudncia. O tal Turco pagou bufando, desconfiado. Com mafioso como ele  bom no abusar. Gostando do salmo? Comida fina, meu caro.
       O dinheiro ganho deu novo estmulo a Waldo. Foi arriscar num cassino clandestino e voltou com mais. Ele conhecia todos os cassinos clandestinos da cidade. 
Noutros tempos trocara a sinuca pelo baralho, no que tambm era muito bom.
       - J esteve no Jquei Clube? - perguntou a Toni.
       - Nunca.
       - Ento vai conhecer o nosso.  uma beleza! Vista sua melhor roupa.
       Toni ficou um tanto deslumbrado com o aspecto do Jquei. Nunca se vira antes num ambiente to luxuoso. Passeou com o tio pelas arquibancadas entre cavalheiros 
e damas elegantemente vestidos. O ar ali era perfumado. Waldo acendeu um charuto. Disse ao sobrinho que o fumo lhe afetava os pulmes, mas fumava charuto quando 
tudo ia bem.
       No intervalo entre os preos Toni reconheceu algum na arquibancada:
       - Aquele no parece o...
       - Parece quem?
       - O Turco. Acho que  o Turco.
       - Onde?
       - A esquerda, tio, mas olhe de relance... Parece que ele nos viu.
       Waldo olhou e engasgou na fumaa.
       -  ele!
       - O Turco?
       - O Turco.
       Toni observou mais.
       - Vem vindo em nossa direo!
       - Vamos sair daqui - decidiu Waldo, assustadssimo.
       Ergueram-se e comearam a sair das arquibancadas, Waldo  frente, meio desarvorado. Toni custou a alcan-lo.
       - Vamos ver as corridas de onde?
       - Corridas? Vamos  cair fora do Jquei. Voando.
       J na rua Waldo ps-se a chamar um txi, embora no passasse nenhum.
       - Tio, no  exagero seu?
       - Vou lhe contar: Turco tem at crimes nas costas.
       - Crimes de morte?
       - J deve ter mandado uns vinte para o cemitrio.
       Um txi parou e Waldo entrou nele precipitadamente. Toni olhou pela janela e viu dois homens saindo do Jquei s pressas e olhando para todos os lados. Pareceu-lhe 
serem pessoas que estavam com Turco na arquibancada. Para no assustar mais o tio, calou-se.
        noite Toni acordou com um grito. Sacudiu o tio. Waldo acordou. Tivera um pesadelo.
       - Quando fumo charuto tenho maus sonhos. Sonhei que estvamos sendo assassinados pela gangue do Turco. Mas tudo bem. Vamos dormir.


10. UMA BREVE VISITA AO HOSPITAL

       "A vida continua", costumava dizer Waldo depois de qualquer insucesso. Assim, ele e o sobrinho voltaram aos sales de sinuca. O gerente de um deles certa 
tarde segurou o taco de Waldo quando ia encaapar uma bola.
       - Agora chega. Wadeco. Alguns fregueses tm se queixado de suas patiaes. Ningum gosta de ser enganado, ser feito de trouxa. - E a Toni: - Voc tambm, 
rapaz, pegue a reta e suma.
       Waldo e Toni saram.
       - Viu, tio? No est dando mais p.
       - Ora, existem muitos sales aqui. Isso sem falar nas outras cidades. Apenas uma porta est fechada.
       - E se tirssemos umas frias?
       - Malandros como ns no tm direito a frias, Toni. A vida  uma batalha diria. Vamos jogar em Osasco.
       Dias mais tarde seguiam os dois por uma rua, quando um carro deu uma brecada fazendo os pneus cantarem. Imediatamente trs homens corpulentos saram, todos 
fazendo cara feia. Trs bravios rinocerontes. Um deles era o Turco.
       Reconhecendo-os e sem possibilidade de fuga, Waldo teve de representar.
       - Andava procurando o senhor pra jogarmos sinuca.
       Turco olhava fixo para Toni.
       - Ento o garoto  seu scio, no?
       - A gente acabou de se encontrar. Quero tirar uma revanche.
       O banqueiro de jogo de bicho devia ter outros compromissos. Estalando os dedos no ar, disse aos outros:
       - Vamos, pessoal. Tirem o couro deles!
       Os brutamontes caram sobre Waldo e o sobrinho, urrando. Murros, empurres e pontaps. Toni logo sentiu na boca um gosto de sangue e tratou de proteger a 
cabea com os braos. Waldo tentou escapar mas foi novamente derrubado. Turco pisava-lhe nas mos como se quisesse impedi-lo de jogar sinuca pelo resto da vida. 
Waldo gemia e gritava. Toni fingia-se de morto. Os que transitavam pela rua nada faziam para impedir o massacre. O rosto do patiador era uma pasta vermelha. Waldo 
ainda gemia e xingava quando Toni desmaiou.
       
       Toni acordou numa cama alva e macia envolto numa atmosfera que cheirava a remdio. Tudo doa. Parecia que um trator passara sobre seu corpo. Eram apenas dois 
no quarto; Waldo estava na cama vizinha. Logo ele comeou a fazer esforos para sair da cama.
       - Aonde vai, tio?
       - Cair fora daqui. Veja se pode andar.
       Entraram um mdico e um enfermeiro.
       - Sentem dores? - perguntou o mdico.
       - Nenhuma - apressou-se Waldo. - Acho que no tive fraturas. Est tudo 0K, doutor.
       - E voc, moo, como se sente
       Toni mexeu braos e pernas.
       - Ele est perfeito - disse o tio. - Apenas escoriaes. Podemos ir?
       O mdico sacudiu a cabea negativamente.
       - No podem sair sem boletim de ocorrncia.  de rotina.
       - Mas temos uma viagem, doutor. No podemos adiar.
       - A polcia j foi chamada e vem vindo - disse o mdico. - Afinal, houve uma agresso.
       - Mas no conhecemos aqueles homens!
       - Mesmo assim precisam depor.
       Mdico e enfermeiro saram.
       - Vamos dar o pira - ordenou Waldo ao sobrinho. - Levante, garoto.
       - O senhor est todo machucado!
       - Olha, eu preferia levar outra surra a enfrentar a polcia. J tive alguns probleminhas com ela. Pessoas maldosas fizeram chaveco, me intrigaram. Vamos desaparecer.
       Toni saltou da cama, mas Waldo s ficou na tentativa.
       - Que foi, tio?
       - Ser que me quebraram? No estou podendo ficar em p.
       - Eu ajudo...
       Com esforo, Toni conseguiu fazer com que o tio se levantasse. Mas ao mover a perna ele sentiu tanta dor que se agarrou todo ao rapaz.
       - Acho que estou quebrado. No vai dar.
       - Tem que dar, tio. Se escore em mim.
       Novo esforo desesperado, dolorido.
       - Me largue na cama.
       Toni obedeceu.
       - Respire forte, tio. Assim. Vamos agora.
       -  o esqueleto que est avariado. Me partiram a perna.
       - Ento relaxe.
       Waldo fixou Toni com seus olhos espertos.
       - Sabe onde guardo o dinheiro no apartamento?
       - Sei, no fogo.
       Retirou uma chave do bolso.
       - Pegue a chave e saia de mansinho. Nada direi aos tiras sobre voc. Apenas um garoto que ia passando e foi atacado tambm. J! - concluiu no tom em que ordenava 
a retirada nos restaurantes.
       Toni foi at a porta.
       - Quer que avise algum?
       - Eu moro s no planeta, Toni. Voc foi o nico extraterrestre que veio me visitar.
       Toni abriu um palmo de porta cautelosamente. Espiou e saiu. Lembrou-se da naturalidade que Waldo sabia demonstrar quando iludir era necessrio. Fazer-se invisvel, 
outra habilidade sua. A bem da verdade, sua vida consistia em aparecer e desaparecer. Dessa vez, foi Toni que se fez invisvel no corredor, nas escadas e no saguo 
do hospital. No trreo agiu como se procurasse algum, necessitado de informaes. L estava o mdico que fora ao quarto. Ocultou-se atrs de uma coluna. Transps 
o porto, voltando a sentir fortes dores pelo corpo.
       Na rua, Toni chamou um txi para voltar ao apartamento do tio. No pensava em nada, s sentia dores e aturdimento. Abriu a porta do 1515. O cheiro era opressivo, 
de lcool, mofo e tabaco. Como suportara aquilo durante meses? Abriu o fogo e pegou o dinheiro. Precisava sumir depressa dali, mas no agentou e desabou na cama, 
ele que desde a chegada dormia no cho. Dormiu profundamente, sono interrompido por um sobressalto. Certamente a polcia apareceria l. A casa dos detidos  sempre 
visitada para averiguaes. E por quanto tempo dormira? Precipitou-se para fora da quitnete. No corredor, mesmo dolorido, correu como se o perseguissem. Chamou 
o elevador de servio.
       Ao chegar ao saguo, Toni lembrou-se da mala. Esquecera-a no apartamento. No havia nela nenhum documento ou endereo comprometedor, mas precisaria das roupas. 
Foi quando viu pelo vidro da porta da rua do edifcio um pequeno carro policial tentando estacionar. Imediatamente ganhou a rua.
       "E agora?", pensou. Tomou o caminho da rodoviria. Em quatro horas poderia estar em casa e abraar dona Amlia. Que saudade dos seus pratos e de uma cama 
fofa. Chamou um txi e disse: Rodoviria! Mas mudou de idia no meio do caminho.


11. SOZINHO NO PLANETA

       Me:
       Est tudo bem comigo. No moro mais com o tio Waldo, no queria ser um peso pra ele. Estou agora num pequeno hotel, muito gostoso. Abrindo a janela do quarto, 
vejo um grande trecho da cidade. Como isso  bonito, apesar de ser s cimento e mais nada!
       J arranjei um emprego, muito divertido, me, mas sobre isso s falarei quando for efetivado.
       Espero que tudo esteja bem com voc.
       
                                                       Tchau, me.
       
                                                               Toni
       
       Durante o almoo seu Antero perguntou  dona Amlia:
       - Tem recebido carta de Antnio?
       - Recebi hoje.
       - O que ele conta?
       - Diz que est tudo bem por l. Arrumou um emprego.
       - Deu endereo?
       - No, Antero.
       - Se escreveu no est preso. Suponho.
       - Por que estaria preso?
       Seu Antero levantou-se da mesa fazendo sinal  Amlia para que o acompanhasse ao escritrio. L, abriu uma gaveta e retirou uma pgina de jornal.
       - Silvano, que l todos os jornais da capital, encontrou isso.
       Dona Amlia reconheceu um retrato do cunhado. Ao lado havia uma notcia.
       
       
       
       
PATIADOR NO XADREZ

       Oswaldo Chaves, 52 anos, conhecido nos sales de sinuca como patiador, tendo ludibriado centenas de jogadores ncautos, foi agredido ontem no bairro de Vila 
Buarque por algumas de suas vitimas. Condenado outras vez como passador do conto-do-vigrio e falso padre que arrecadava fundos para a construo de um orfanato, 
voltou ao presdio aps a agresso para responder a diversos processos. Seu comparsa, um jovem de identidade desconhecida, aparentando 18 anos, tambm justiado 
na ocasio, escapou do hospital em que foram socorridos.
       
       - Parece que o tal jovem  Antnio.
       - Antnio?
       - Mal chegou na capital e j  um delinqente. Precisamos localiz-lo antes que nos envergonhe. Tem alguma pista donde possa estar?
       Abatida pela notcia, mantendo a cabea baixa, dona Amlia apenas respondeu:
       - No tenho.


12. PARADISE

       Toni gastou apenas trs dias para arrumar um emprego.
       Depois de percorrer muitos escritrios, uma imensa placa chamou-lhe a ateno: PARADISE.
       Passara por l uma vez com tio Waldo. Era um espaoso estabelecimento com um sofisticado bar  entrada e pista de dana ao fundo, rodeada de mesas. Devia 
ser ponto de encontro dos estudantes de dois colgios prximos. Ambiente alegre.
       Toni entrou e dirigiu-se ao balco onde um garom duns trinta anos, extrovertido e brincalho, servia coquets coloridos a dois jovens.
       - Esto precisando dc garom?
       - Que histria  essa de garom? Aqui no h garom, h barman ou bartender. 0K?
       - 0K, mas precisam de um?
       - Perdemos um ontem  noite. Tem prtica?
       - Fui barman da cantina do colgio em minha cidade.
       - Voc tem pinta de estudante e isso pra ns  bom. Aceita um ms como experincia ou faz questo de registro?
       - No quero ser registrado como barman na carteira de trabalho. Aceito a experincia. Com quem falo?
       - Comigo mesmo. Acima de mim s tem aquele que est na caixa, o Cintra, mas no bar sou eu quem resolve. Pode comear hoje?
       - Por mim comeo agora.
       - Seu nome?
       - Antnio, mas me chamam mais de Toni.
       - Toni  melhor. - Estendendo a mo: - Juliano.
       - Tem s um probleminha - disse Toni. - Moro num hoteleco perto da rodoviria, mas a grana est acabando.
       - O cara que se mandou dormia aqui mesmo, num div do escritrio. Se voc quiser...
       - Tudo bem...
       - E pode encher a barriga aqui mesmo. Grtis. Sanduches, pizzas, omeletes, batatinhas fritas. Conseguir se manter vivo e feliz.
       - Qual  o salrio?
       - Voc  curioso, no? Salrio mnimo. Mas as gorjetas compensam. Vai precisar duma jaqueta. O Paradise tem classe. Temos uma que vai lhe servir.
       Juliano levou Toni a um quarto de vestir.
       - Vista essa.
       Serviu. Toni olhou-se no espelho. Nunca se imaginara em vermelho.
       - At que no ficou mal - disse.
       - As garotas dos colgios vm aqui aos montes. At eu, um trinto, j namorei algumas. Agora vamos  primeira aula. Precisa aprender a preparar coquetis, 
as especialidades da casa.
       Toni entrou atrs do balco, muito comprido, montado sobre um frigorfico da mesma extenso. Cada coquetel, explicou Juliano, tinha sua receita. A base era 
sempre vodca, gim, licores, vinhos, misturados com refrigerantes ou com pedaos de frutas, limo ou laranja, espremidos, servidos em copes cheios de gelo modo 
ou em cubos. Como complemento um ou dois canudinhos, coloridos e transparentes.
       - O importante nesses coquetis  a apresentao. No gosto at que no diferem muito. Hoje o que conta, em tudo,  o visual.
       Os coquets levavam nomes extravagantes, batizados por Juliano, do que se orgulhava. Pronunciava-os sorrindo: "Casablanca", nome extrado de um filme antigo, 
muito exibido na televiso; "Shortinho", o menor de todos; "Penltimo", o preferido pelos fregueses que sempre pediam mais um; havia, ainda, "Buuuu", to forte que 
assustava, e o mais solicitado, "Saudade de Elvis Presley", homenagem a um dos pais do rock.
       A primeira aula s consistiu em observar. Juliano no era um garom comum, agia com a habilidade e elegncia dum mgico. A parte mais espetacular do show 
era a mistura dos ingredientes numa coqueteleira metlica, que ele agitava com ritmo, velocidade e graa. A estudantada vibrava ao ver Juliano gingar com a coqueteleira, 
dar passos de dana, arremess-la ao ar e fingir que ela lhe escapava das mos. Mas nunca em silncio: enquanto "coquetelava" dizia versinhos maliciosos de sua autoria 
ou silabava os nomes dos coquetis.
       -        Um pe-pe-pe-nl-nl-ti-ti-mo-mo j-j.
       Toni jamais vira um garom ser aplaudido. Juliano, o artista, conseguia isso.
       - Se espera que vou fazer o que voc faz...
       - Fazendo a metade j  o bastante.
       Toni decidiu levar o trabalho a srio. Decorou depressa os nomes dos coquetis e as receitas, tambm hbil nas mgicas com a coqueteleira. Bom imitador.
       - Voc est se saindo melhor que a encomenda - elogiou-o Juliano, uma semana depois. - Poderei folgar mais um pouco. Tenho meus negcios fora do bar.
       Devia ter mesmo, observava Toni, que sempre o via sair bem vestido e dirigindo um carro. Se ganhava muito dinheiro nos negcios fora, por que continuava no 
Paradise? Amor  arte?
       Depois da uma hora da madrugada, quando o Paradise fechava, Toni recolhia-se ao escritrio e deitava-se num desconfortvel div. Logo s sete era enxotado 
por um faxineiro. Numa dessas madrugadas solitrias, telefonou para Juliano. Assim que ele atendeu, ouviu msica.
       - Estou dando uma festinha. Na prxima convido voc. Tudo bem por a?
       Alm de Juliano, Toni no conversava muito no Paradise. Os demais garons, que no simpatizavam com os modos expansivos de Juliano, estenderam a antipatia 
ao seu protegido. Chamavam a ambos de palhaos. Apenas a moa da caixa, do perodo da tarde, gostava de papear com Toni. Aparentava dezoito anos, jeito delicado 
e chamava-se Virgnia. rf de pai, trabalhava para pagar os estudos. Sonhava ser arquiteta. "Ela tem um ar de que o mundo est contra ela", comentara, certa vez, 
Juliano. O artista decididamente no a apreciava: "Parece minha av quando era mocinha. Aposto que canta no coro de alguma igreja".
       - Voc est indo muito bem no Paradise - disse ela a Toni.
       - Este  apenas um emprego provisrio. Pretendo entrar na Faculdade. Gosto de jornalismo. Meu pai trabalhou a vida toda em jornais. Gosto tambm de livros. 
Tudo o que  impresso me atrai.
       - Vou lhe fazer uma confisso: odeio este bar. E quer que lhe confesse outra coisa? Odeio tambm seu amigo Juliano. Voc no acha que  um chato?
       Toni no poderia desgostar de Juliano, a quem devia o emprego, alm de outro favor, desses inesquecveis. Este aconteceu no dia em que lhe perguntou:
       - Como , Toni, est gostando de So Paulo?
       - Que So Paulo? - respondeu Toni. - No saio do Paradise. Me sinto preso aqui.
       - Sabe dirigir?
       - Dirijo at caminho. Meu padrasto tem uma penca deles.
       - Tem carta?
       - Tenho e no foi comprada.
       Juliano tirou do bolso uma chave de carro e entregou-a a Toni.
       - D um passeio toda manh.
       - E voc?
       - Tenho outro, que fica na garagem do edifcio. Aviso o pessoal do estacionamento que voc vai tir-lo. Os documentos esto no porta-luvas.
       - Voc  um camarado, Juliano! Ento tem dois carros?
       - s vezes trs.
       - Trs?
       - Compro e vendo carros, chapa. Por isso dou os meus sumios. Bom divertimento!
       J no dia seguinte Toni fez um passeio matinal no carro de Juliano, o que passou a repetir constantemente. Assim ficou realmente conhecendo a cidade. Em troca 
do favor, Juliano sempre lhe dava uma piscada e desaparecia do Paradise nas horas menos movimentadas. Comprar e vender carros, explicava, exigia-lhe muita conversa, 
trabalho com a documentao, tempo.
       Numa dessas manhs, ao estacionar o carro no Parque Ibirapuera, para Tomar um sorvete, Toni ouviu que o chamavam. Uma voz feminina, distante, algo conhecida. 
Voltou-se e ficou paralisado com a surpresa. O mundo podia ser pequeno, mas So Paulo no...
       

13. A CURTIO MATINAL

       - Toni!
       A voz custou a sair:
       - Raquel!
       Ela, que se separara de um grupo de amigas, aproximou-se. Estava deslumbrante. Sua beleza, apenas esboada em Vila Grande, completara-se.
       - Toni, como voc est bonito! E de quem  esse carro? Do seu padrasto?
       - No,  meu. Estou morando em So Paulo.
       - Mudaram pra c?
       - Eu mudei. - E depois duma pausa dramtica:
       - Fugi de Vila Grande.
       - Fugiu? Que loucura!
       - Loucura? Voc no me disse que devia ter personalidade?
       Como se sentisse responsvel pelo que Toni fizera, recuou:
       - Mas no disse pra fugir, seu doido!
       - No suportava mais o padrasto. Se continuasse l, teria de estudar contabilidade e trabalhar na transportadora, sob as ordens de Silvano.
       - Aquele antiptico que pensa que  o dono do mundo?
       - Aquele mesmo.
       - Ento fez bem. Parabns! Mas recebe mesada do padrasto?
       - Se fugi, como poderia receber ajuda? Vivo s minhas custas. Compro e vendo carros - mentiu, Tomando de emprstimo a profisso de Juliano.
       - Isso d dinheiro?
       - Por qu? Aparento estar mal de vida?
       Raquel sorriu sedutoramente.
       - Que nada! Voc est um gato, Toni!
       - E voc t demais, superbonita, capa de revista. - E observando certa inquietao no grupo de amigas de Raquel: - Vamos dar um passeio de carro? Depois te 
levo pra casa.
       Nem foi preciso Raquel consultar ou avisar as amigas. Uma delas adiantou-se e disse:
       - Voc j tem um programa melhor que o nosso. At amanh, na faculdade.
       Raquel entrou no carro de Toni, radiante. Aquela manh de cu azul estava perfeita para os dois.
       - Quem so elas? - perguntou Toni.
       - Colegas da faculdade. E voc, abandonou os estudos?
       - Temporariamente.
       - Dona Amlia sabe onde voc est?
       - Sabe apenas que estou em So Paulo. Escrevo-lhe sempre. Se tivessem meu endereo, viriam me buscar.
       Raquel tinha tantas perguntas a fazer!
       - O que diz da cidade?
       - No comeo me assustou um pouco, tem gente demais, muito barulho, mas acho que j gosto dela. Sabia que aqui tem mil vezes mais pessoas que em Vila Grande?
       - Vila Grande... At esqueci que ela existe. Pra mim, de importante na cidade, s havia voc.
       Era tudo o que Toni queria ouvir. Aquele foi o maior passeio de sua vida. Bem que precisava de sorte depois do azarado episdio do Turco. Raquel, no carro, 
na rua, na lanchonete onde foram depois, tambm demonstrava muita alegria.
       - s vezes tudo fica muito vazio - disse. - Me canso das coisas, at quando namoro.
       Toni enciumou-se:
       - Voc namora com algum?
       - No, mas j namorei, de passagem. Foi pra esquecer voc.
       Toni poderia ter namorado com Virgnia se quisesse, mas teria sido como enganar Raquel, embora no imaginasse encontr-la mais. Ficou calado, um tanto ferido, 
mas a emoo do encontro voltou quando ela props:
       - Podemos nos encontrar sempre.
       - Tenho todas as manhs livres - ele disse de sopeto.
       - Isso  timo, saio da faculdade s onze. Podia passar por l.
       - No teremos muito tempo, mas  melhor que nada.
       - E podemos sair  noite tambm.
       Toni lembrou-se do Paradise. Sua folga noturna era apenas uma vez por semana.
       - s quintas-feiras eu posso.
       - E noutros dias, o que faz? No me diga que vende carros  noite.
       - Claro que no - ele respondeu, pensando depressa. -  que estou fazendo um curso intensivo de ingls, com professor particular.
       Toni brecou o carro diante de um vistoso edifcio.
       - Moro aqui. E voc, onde?
       - Moro com um amigo.
       - Vou anotar o telefone.
       - Sabe que nem sei de cor? - desculpou-se. Dar o telefone do Paradise  que no podia mesmo.
       Inesperadamente Raquel beijou-o. No era mais o beijo recatado e breve de Vila Grande. Foi longo, concentrado, sem preocupaes.
       - Passa na faculdade na sexta?
       - Por que sexta? Passo amanh mesmo.
       Apesar da grande manh, cenrio de um encontro sensacional, devendo estar soltando rojes, Toni voltou para o Paradise meio triste.
       - Problemas? - perguntou Juliano.
       - Um s, mas do tamanho do Estdio do Morumbi.
       - Segredo?
       - No tenho segredo para voc, meu chapa.
       Toni contou tudo: a antiga namorada de Vila Grande, o encontro puramente ocasional, o namoro que recomeava, mas, para atrapalhar, um problema, logo de incio: 
o nmero do telefone, que ela certamente tornaria a pedir.
       - Entendo - disse Juliano. - Se ela  uma gr-fina e descobrir que voc trabalha no Paradise, melou tudo.
       - Estou numa sinuca de bico.
       Juliano no precisou pensar muito para apresentar uma soluo:
       - Acho que voc j anda com as costas doendo de tanto dormir naquele div, no?
       - Se ando, mas se eu mudar para um hotel iro embora o salrio e as gorjetas.
       - Mude para meu apartamento. Tenho um quarto sobrando, onde fica meu aparelho de som.
       - Pensei que morasse numa quitinete!
       - Morava nos maus tempos. Agora estou numa boa.
       - Voc me tirou do aperto! - exclamou Toni. No sabia como sair dessa.
       - Voc tem me dado cobertura no Paradise. Nas horas de folga  que me viro. E um parceiro como voc no se encontra todo dia. O outro era um chato, se eu 
me atrasasse, me dedurava ao patro.
       - Quando posso mudar?
       - Hoje mesmo.


14. TENSO EM VILA GRANDE

               Me:
       
       J no estou morando naquele hotel da ltima carta. Mudei para o apartamento de um amigo, que  um luxo. Tem de tudo: geladeira, mquina de lavar roupa, aparelho 
de som, televiso e. vdeo. E no  muito distante de onde trabalho. Quanto ao tio, no o vi mais porque ando muito ocupado.
       Se algum perguntar por mim em Vila Grande, pode dizer que estou bem, melhor impossvel, pois  a pura verdade.
       Estou com muita saudade da senhora e mando muitas lembranas. O endereo no posso dar ainda, a senhora sabe por qu.
       
                                               Um grande beijo e o tchau do
       
                                                               Toni
       
       Desta vez dona Amlia leu a carta diante do marido, que a trouxera da caixa do correio, tendo reconhecido a letra do enteado. Sentou-se diante dela, na sala, 
e esperou que a lesse. Depois, pediu:
       - Posso ler?
       Seu Antero apenas passou os olhos pela carta.
       - S mentiras. No acredito que esteja morando num bom apartamento. A no ser que...
       - A no ser o qu?
       - Que tenha enveredado pelo caminho do tio.
       - Ton  um rapaz de princpios.
       - Mas no est mais sob seus cuidados. Quem  esse amigo? Por que no deu o endereo? Onde trabalha? Se estivesse agindo bem no haveria motivo para esse 
mistrio todo.
       - Certamente receia que eu v busc-lo.
       - No penso assim. Se tudo isso fosse verdade, ele se apressaria em provar que venceu sem a nossa ajuda. Seria o lgico.
       Dona Amlia, que desde a fuga do filho evitava conversar com o marido para no ouvir crticas a Toni, dispunha-se a voltar para o quarto, seu refgio, quando 
Silvano, sempre com seu ar de superioridade, entrou em cena.
       - Leia esta carta - ordenou o pai.
       Silvano leu-a em segundos.
       - Ele deve estar preparando outra. S espero que no venha causar complicaes - disse, como se Toni fosse um estranho e no o filho de sua madrasta, quase 
seu irmo.
       Seu Antero tomou uma deciso:
       - Precisamos localizar Toni e traz-lo de volta.
       - Localizar Toni? - rebateu dona Amlia em tom de protesto. - Seria para ele uma grande humilhao.
       - Pode fazer isso, Silvano?
       Silvano gostava que o pai lhe confiasse misses difceis para comprovar sua capacidade.
       - Conte comigo, pai. Mas como descobrir onde ele est?
       - Voc sempre tem boas idias, meu filho. Pense numa que lhe dou carta branca para agir.


15. UM APARTAMENTO E TANTO

       Toni teve uma grande surpresa ao entrar no apartamento de Juliano. Chocante! Era um ap de quem estava bem na vida, todo moderninho e elegante. Coisa de rico!
       -  um luxo s, companheiro!
       - Sei o que  bom. Veja aquelas poltronas vermelhudas. Custaram uma nota preta.
       - E esses quadros na parede!
       - S de pintores superbadalados. Uma forma de investimento. Vamos dar uma olhada na cozinha. Tenho uma penca de eletrodomsticos.
       Foram  cozinha, Toni ainda de boca aberta.
       - Tudo muito bacana, Juliano! Quem diria que um barman...
       Juliano fez uma cara sria.
       - Vou pedir um favor, Toni
       - Quantos quiser.
       - No abra a boca l no Paradise. Nem com a Virgnia. Tenho pavor de olho gordo, inveja, despeito. Por isso os colegas nem sabem onde moro.
       - Sei fazer boca-de-siri. Mas deve estar faturando alto com os carros!
       - Estou mesmo, e teria milhes no over se no torrasse tanto dinheiro por ai.
       - Fico grilado com unia coisa - revelou Toni.
       - O qu? - quis saber Juliano.
       - Por que, ganhando essa nota, continua no Paradise? Afinal as gorjetas no so l essas coisas.
       Juliano riu com toda a sua simpatia.
       - E quem disse que vou envelhecer servindo coquetis? Assim que tiver enchido o colcho de dinheiro, pego meu caminho. Venha ver seu quarto.
       Que diferena da quitinete do tio Waldo! Televiso, aparelho de som, vdeo e at um pequeno telescpio para sondar os espaos. Toni olhava tudo, feliz com 
o novo domiclio.
       - Voc  muito caprichoso.
       - No sou eu quem cuida de tudo. Tem uma faxineira que vem aqui trs vezes por semana. Voc poder dormir naquele sof-cama, que no  um quebra-costelas 
como o do Paradise.
       - Voc  um grande cara!
       - Quem sabe a gente trabalhe junto no negcio de carros. Estou precisando de um scio de confiana, que saiba ficar calado.
       Logo que se viu s, estranhando os sigilos do amigo, Toni pegou o telefone e discou.
       - Raquel, sou eu.
       - Toni!
       - Anote o nmero do meu telefone.
       Raquel anotou e perguntou:
       - Tem programa para quinta?
       - No.
       - Podemos fazer alguma coisa.
       - O que voc propuser.
       - Me apanhe s oito. Beijos.
       Na quinta, durante o trabalho no Paradise, Toni pediu a Juliano:
       - Pode me emprestar o carro  noite?
       - Mas no aquele. Vendi. - E tirando uma chave do bolso. - Este aqui  quase zero-quilmetro. S que est sem os documentos. Tudo bem?


16. DELICIOSA QUINTA-FEIRA

       Raquel, que esperava Toni diante do edifcio onde morava, exclamou:
       - Outro carro?
       - No disse que compro e vendo? Voc ainda vai me ver com um carro importado.
       Mas Raquel tinha algo importante a dizer.
       - Disse a meus pais que tenho saido com voc.
       - Bronquearam?
       - Pelo contrrio, papai quer conhecer voc. Lembra-se muito bem de seu padrasto.
       - Estamos de relaes cortadas. No quero saber dele.
       - Isso no contei - garantiu Raquel. - Nem precisam saber. Pelo menos por enquanto. At que vocs faam as pazes.
       - Eu e meu padrasto? Corta essa.
       - Vamos entrar.
       - Entrar?
       - Esto  nossa espera. No so bichos, no.
       Toni hesitou ainda, mas um beijo acabou por convenc-lo.
       O pai de Raquel, Dr. Ricardo, e a me, dona Neusa, agora mais chique, receberam Toni com abraos e sorrisos. Gente muito refinada, cordial. Dr. Ricardo mostrava-se 
saudoso de Vila Grande, onde dirigia a sucursal da firma para a qual trabalhava.
       - Conheci seu padrasto - disse. -  o que os americanos chamam de seIf-made-man. Fez-se por si prprio. Comeou do nada e foi subindo. Muita garra! Sempre 
me surpreendi com a rapidez com que montou sua frota de caminhes. Espelhe-se no seu padrasto e ir longe!
       - No quis trabalhar na empresa dele - disse Toni, orgulhoso.
       - Bem, isso demonstra valor pessoal, independncia.
       - Mas ele tem um filho, no? - lembrou dona Neusa.
       - Silvano, trabalha na transportadora.
       - Estou lembrado - disse o pai. - Parecia muito ativo.
       Raquel interveio brincando:
       - Mas Toni  muito mais bonito.
       - Isso  verdade - concordou a me, rindo.
       - Vamos omar um refrigerante? - sugeriu o pai. - Ou prefere um coquetel?
       A palavra coquetel constrangeu Toni, ligando-a ao Paradise.
       - Coquetel - preferiu Raquel pelos dois. - Clara, minha colega, ensinou nossa empregada a preparar um muito gostoso. Chama-se Saudade de Elvis Presley.
       Todos riram e Toni fingiu rir tambm.
       Mas o resto da noite foi muito melhor. Passearam muito e foram  mais incrementada danceteria da cidade. Toni aprendera a danar bem no clube de Vila Grande 
e mostrou o que sabia.
       Raquel estava solta e eufrica.
       - Que bom meu pai ter conhecido voc.
       Quando se cansaram de danar foram ao carro de Toni, estacionado nas proximidades. Raquel, muito impetuosa e romntica, fez com que ele sentisse uma emoo 
especial, dessas para serem arquivadas e nunca mais esquecidas. Era mesmo uma pena ter de esconder a ela e ao simptico casal de pais sua verdadeira situao. Mas 
deveria confiar na sorte, ir em frente. O principal era aproveitar aqueles momentos.
       Na quinta-feira, ao entrar no apartamento, Juliano, que assistia a uma fita de vdeo, olhou-o e brincou:
       - Agora sim parece estar no paraso, no l no Paradise.
       Toni riu, achando graa no trocadilho.


17. BREVE IDA A VILA GRANDE

       Dona Amlia no desejava que Silvano localizasse seu filho na capital. Ser trazido de volta, fracassado, seria para ele um mal talvez irreparvel. E para 
ela tambm, que no ntimo admirava a rebeldia de Toni.
       - Podamos recorrer  polcia paulistana - disse Antero a seu filho.
       - Nem pense nisso - protestou dona Amlia. - No permitirei.
       - Ah, tinha esquecido da encrenca em que se meteu com aquele tio fora-da-lei.
       Um dia, os trs  mesa, Silvano, com seu ar de superioridade e segurana, noticiou friamente:
       - Sei como encontrar Toni.
       Seu pai moveu-se na cadeira: Silvano nunca o decepcionava.
       - Como, filho?
       - Ele namorava aquela garota, a Raquel, filha do Dr. Ricardo, esto lembrados? Pois duvido que no foi procur-la em So Paulo.
       - Boa idia! - exclamou Antero, com mais um motivo para admirar Silvano. - Isso mesmo. No sei como no pensamos nisso antes. Mas como descobrir o endereo 
da famlia em So Paulo?
       - Podemos obter informaes aqui mesmo na sucursal da empresa em que o pai dela trabalha.
       - Esse  o caminho, filho! - aprovou Antero. - Trate disso.
       Dona Amlia ia pedir - ou mesmo implorar - que esquecessem o filho, que no lhe causassem vexame algum, mas no abriu a boca, ciente de que suas palavras 
seriam inteis. Os dois estavam de um lado e ela de outro. Sobre esse assunto e provavelmente sobre todos, no mais se entenderiam.




18. 0 DESTINO TOMA PARTIDO CONTRA TONI

       Era uma noite espetacular de sexta-feira em que o Paradise Drinques e Danas estava repleto desde a happy hour, ao cair da tarde. Estudantes espremiam-se 
de encontro ao balco, ocupavam as mesas, danavam nas pistas. Toni e Juliano no cessavam de servir refrigerantes, preparar coquetis, sem tempo para as visagens 
e brincadeiras dos momentos mais folgados.
       - O patro deve estar assanhado com essa freguesia toda - disse Juliano.
       - Veja a coitada da Virgnia na caixa. Ainda no parou um momento.
       - E quando pra  pra lhe dar uma olhada. Acho que 't mesmo ligada em voc.
       - Mas eu no quero nada com ela. Amo Raquel.
       Toni, vibrando a coqueteleira, enchendo copos, distribuindo canudinhos, nem olhava ao redor. Se no se concentrasse no servio, embolava tudo. Era um verdadeiro 
barman eletrnico.
       - Um Saudade de Elvis Presley.
       Toni conhecia aquela voz, embora lhe parecesse disfarada. Algum que imitasse a voz de ningum. Estava abaixado para apanhar gelo do refrigerador e foi erguendo 
o corpo como se temesse a materializao de um fantasma.
       Raquel mantinha os olhos fixos nele, ladeada por um casal de amigos. A moa, Clara, ele j vira algumas vezes.
       - Esse a no  o Toni?
       O rapaz ficou totalmente perturbado. Preferia um terremoto, mas tudo estava bem fixo. No sabia se continuava servindo, se falava com Raquel ou se fugia, 
saltando sobre o balco.
       - Pedi um coquetel - repetiu a garota.
       - Mas ele  o Toni, no ? - insistiu Clara.
       - Pergunte a ele - disse Raquel.
       Juliano, que tinha antenas para tudo e percebia  distncia, aproximou-se. Perguntou, lateralmente:
       -  a Raquel? - E como Toni no respondesse nem se mexesse, acrescentou: - Eu sirvo o pessoal. Pode sair da raia.
       Toni saiu de trs do balco e contornou-o. No podia ficar sem dizer nada.
       - Eu no esperava que voc... Est muito zangada?
       Raquel olhava-o com dio.
       - Voc mentiu pra mim, mentiu pra meus pais, mentiu...
       - Se eu dissesse a verdade, namoraria comigo assim mesmo?
       - Volte para o balco, Toni. Deve precisar muito desse emprego.
       Caindo num abismo, Ton retrucou:
       - O que disse dos automveis  fato. O bar  apenas um quebra-galho.
       Raquel, sem pegar o coquetel que Juliano depositara sobre o balco, disse aos amigos:
       - J estou de sada!
       Toni segurou o brao dela.
       - No v, explico tudo.
       O amigo de Raquel interveio:
       - Deixe a moa em paz, sim?
       Toni afundou-se no Paradise, empurrando fregueses. Passou por Virgnia, que do caixa assistira  cena, talvez sem entender. Ele precisava lavar o rosto, refrescar-se. 
Quando voltou ao bar, depois de algum tempo, Raquel e o casal de amigos no estavam mais.
       Juliano:
       - Era a noivinha?
       - Era.
       - Coincidncias acontecem.
       - Acabou tudo.
       - Acho que no resta dvida. A gr-fininha saiu feito ona.
       No seu aturdimento, Toni procurava encontrar explicaes.
       - Ento ela no gostava de mim. Afinal, cometi algum crime?
       Juliano viu o nmero de fregueses crescer.
       - D pra encarar o balco?
       - Posso tentar. Mas estou nocauteado.
       Juliano percebeu que Toni no suportaria o trabalho.
       - Ento v pra casa, procure relaxar e durma. Sei o que  um pontap no corao. Me viro sozinho.
       Toni foi trocar o jaleco de servio pelo palet, passando pela caixa. Virgnia lanou-lhe um olhar solidrio. J devia ter imaginado o que acontecera.


19. NA PISTA DE TONI

       Silvano entrou s pressas na sala de jantar de sua casa agitando no ar um pedao de papel como se fosse uma bandeirola.
       - O endereo, pai - anunciou triunfante. - Forneceram-me rua, nmero e telefone do pai de Raquel.
       A notcia agradou a seu Antero, a dona Amlia no.
       - Voc  muito eficiente, meu filho. O que devemos fazer? Escrever ou telefonar?
       Silvano trouxera uma idia da rua.
       - O assunto  delicado, pai. Creio que seria melhor resolver pessoalmente.
       Dona Amlia tomou uma deciso:
       - Eu irei - disse com firmeza.
       - Melhor que eu v - rebateu Silvano.
       - Ele  meu filho - protestou ela.
       Antero ignorava as razes de Silvano, seu motivo secreto, Raquel, mas se aliou a ele.
       - Deixemos pessoas da mesma idade resolverem a questo.
       Dona Amlia saiu da sala revoltada. A guerra entre eles se intensificava.
       Silvano:
       - Parece que ela no quer que o filho volte.
       - Temos brigado muito por causa de Antnio. Amlia no admite que ele possa me complicar com a polcia.
       - Vou preparar tudo para a viagem, pai.
       - E se ele no quiser voltar com voc?
       - O que  melhor, morar aqui ou debaixo de uma ponte em So Paulo?
       Mas era em Raquel que ele pensava. Corno um quase-enjeitado a conquistara?
       
       
       
       
20. A MOA DA CAIXA

       Naqueles dias amargos a nica distrao de Toni era conversar com Virgnia.
       - Viu o rebu que aconteceu outro dia? Eu tinha dito  minha namorada que vendia carros.
       - Voltaram a se encontrar depois?
       - Claro que no, ela no vai me perdoar nunca.
       - No foi uma grande mentira.
       - Voc no conhece o mundo em que Raquel e seus pais vivem. Dinheiro, conforto, luxo, so os deuses deles.
       - Ainda gosta dela?
       - Gostar, no sei. Ela me parece um grande m.
       Por pena ou simpatia, Virgnia disse:
       - Est precisando  de desabafo. Folgo s quintas. Quer chorar as mgoas?
       Na quinta seguinte, Toni e Virgnia saram sem ter nada programado e acabaram entrando numa danceteria. Mas no ficaram muito l, preferindo um gostoso bar 
ao ar livre. Toni contou-lhe toda a sua histria e ouviu a de Virgnia. Ela morava com a me e uma irm mais velha. Detestava o Paradise, mas no encontrara trabalho 
melhor para pagar os estudos. Era ambiciosa. Queria fazer alguma coisa de bom na vida, alm de casar e ter filhos. Tinha uma paixo: observar velhos casares. Julgava-se 
at muito moderna, mas com um p no passado. Gostava de ler biografias e freqentar exposies de pintura. J namorara, porm sem amor. Sentia-se mais velha que 
todos os seus namorados.
       Toni reconheceu logo que Virgnia diferia das outras garotas. Principalmente de Raquel, para quem o mundo era uma festa. Com ela podia abrir-se, expor o seu 
ntimo. E comeava a ach-la mais bonita do que lhe parecera a princpio. Diante da caixa registradora ficava fria e distante demais.
       - Apenas discordo de voc num ponto - disse ela. - Juliano. No suporto os espertos.
       - Para mim ele tem sido muito bom. Devo-lhe o emprego, a casa e a comida.
       - No creio que o ajudou sem interesse.
       - Cubro suas faltas no Paradise - explicou Toni. - Ele tem negcios particulares. Uma mo lava a outra. Virgnia olhou para o relgio.
       - Preciso ir.
       - Gostei muito da noite - afirmou Toni. - Que tal sairmos na semana que vem?


21. UM ADEUS SEM PALAVRAS NEM ACENOS

       Apesar dos encontros com Virgnia, Toni continuava com o pensamento fixo em Raquel, o m, acreditando que um dia ela reapareceria. Juliano percebia a ansiedade.
       - J digeriu aquele pepino?
       - O gosto continua na boca.
       - Faa um gargarejo.
       Toni fingiu rir e perguntou:
       - Pode me emprestar o carro?
       - Aquele j passei adiante. - E tirou uma chave do bolso. - Tem um menorzinho na garagem. Serve?
       Toni pegou o carro e foi rondar o quarteiro do apartamento de Raquel. Deu voltas e mais voltas. Se ela aparecesse, resolvera, iria ao seu encontro. Mas nada 
de ela aparecer. Decidiu ir at a lanchonete que freqentaram durante o namoro. Estacionou nas proximidades e ficou espiando. No a viu. Talvez estivesse no fundo 
da lanchonete. Saiu do carro e seguiu at a porta, olhando mesa a mesa. Voltou para o carro pensando percorrer outros pontos onde seria possvel encontr-la. Girou 
a chave do motor. Ento olhou para frente e estremeceu.
       - Raquel!
       Ela, num vestido azul, vaporoso, aproximava-se da lanchonete. Nunca a vira to esvoaante e risonha. Mas no estava sozinha. Reconheceu o rapaz que caminhava 
ao lado de Raquel, como se fosse o dono da tarde. Silvano! Sim, era Silvano!
       O primeiro impulso foi o de dar a partida imediatamente. Fugir daquela cena. Mas sentiu quase um prazer amargo, desejo de autotortura. Viu quando ambos se 
sentaram e chamaram o garom. No falavam muito, mas se olhavam, um encantado pelo outro. Pareciam ensaiar gestos de pessoas que tateiam os caminhos da intimidade, 
que ensaiam aproximaes, que testam cautelosamente tcnicas de conquistas amorosas.
       O elstico da resistncia emocional de Toni arrebentou. Impossvel continuar ali. Perdera Raquel e justamente para quem mais detestava.


22. CHORAR FAZ BEM

       A0 entrar no apartamento, Toni largou-se na cama e chorou. Chorou como quando era menino e sua cachorrinha fugiu de casa para no mais voltar; como no dia 
em que lhe roubaram a bicicleta; como no enterro do pai. L fora o mundo desabava. Teria de andar a vida toda sobre escombros.
       Apenas algumas horas depois pde pensar no fato como uma triste verdade. O que teria aproximado Silvano de Raquel? No tardou a imaginar que a pedido de sua 
me, ou de seu Antero, ou de ambos, ele fora a capital  sua procura. E certamente a primeira etapa fora Raquel. Em Vila Grande seria fcil obter o endereo do Dr. 
Ricardo na sucursal da firma em que ele trabalhava.
       Mas outro golpe estaria a caminho: Silvano certamente iria procur-lo. Decidiu no atender a telefonemas nem  campainha. Juliano diria que l no morava 
nenhum Toni. Porm... E se ele aparecesse no Paradise, j que Raquel sabia onde ele trabalhava? Viu Silvano, com cara de poucos amigos, levando-o de volta  Vila 
Grande. Viu-se derrotado diante do padrasto e forado a cursar contabilidade. E para o vencedor, um belo trofu: Raquel.
       Sem saber o que fazer, Toni pegou o telefone e discou. Ouviu a voz de uma das empregadas.
       - Quer chamar dona Amlia?
       No precisou esperar muito.
       -  Amlia.
       - Me, sou eu.
       - Toni! Por que no me telefonou antes?
       - Me, Silvano veio me buscar, no?
       - Sim, embarcou ontem. Falou com voce?
       - Eu o vi com Raquel,  distncia. Foi voc que o mandou me procurar?
       - No, fui contra - ela garantiu.
       - Foi mesmo?
       - Achei que era uma humilhao para voc. Portanto, se estiver bem, se no lhe falta nada, no  preciso voltar.
       - Ento foi idia dele?
       - Dele e de Antero, por causa da notcia que saiu no jornal sobre seu tio Waldo. Temem que se meta em confuses que possam prejudicar os negcios aqui.
       - Aquilo foi um azar. Mas no me encontraro. Mudo de emprego, de apartamento, desapareo do mapa.
       - E Raquel?
       - A gente no namora mais. Pelo que vi numa lanchonete, ela agora namora o Silvano. Mas no me interessa. Vou sumir. Tchau, me, um dia telefono.
       Depois o rapaz fez outra ligao. Ouviu a voz de Virgnia.
       - Sou eu, Toni.
       - Ol.
       - Algum esteve me procurando?
       - Que eu saiba, no.
       - Virgnia, oua uma coisa.
       - Diga.
       - Estou deixando o Paradise.
       - Por que?
       - O filho do meu padrasto veio me buscar e no quero que me encontre. Vou arranjar outro emprego. Depois telefono pra voc e marcamos uma sada. No diga 
nada ao Juliano. Quero avis-lo pessoalmente.
       - Juliano no veio trabalhar.
       - No? Mas me disse que ia.
       - S deu uma passada.
       - Bem,  isso, Virgnia. Logo nos veremos. Agora vou cuidar da vida.
       Toni desligou. A deciso estava tomada. Mas se sasse do Paradise, Juliano permitiria que continuasse por mais algum tempo no apartamento?
       Ento ouviu rudos, porta batendo e passos. Devia ser Juliano que de fato no fora trabalhar.


23. O QUE HOUVE? O QUE HOUVE?

       Toni levantou-se e foi para a sala. L encontrou Juliano plido e um tanto desarvorado. Parecia que o amigo, igual a ele, havia sido atingido por um mssil. 
No era o alegre showman do Paradise. Espiava pela janela.
       - O que houve? O que houve?
       - No aconteceu nada - respondeu Juliano bruscamente.
       - No foi ao Paradise?
       Juliano olhou bem srio para o amigo.
       - Vou sumir de l e acho que deve fazer o mesmo.
       Toni no entendeu. Acompanhou Juliano, que foi  cozinha, morto de sede.
       - Por qu?
       - Agora no d pra explicar.
       - Brigou com o patro?
       - Estou metido numa encrenca - disse Juliano depois de dois copos de gua. - Vou cair fora tambm do apartamento.
       - E eu?
       Juliano foi para o quarto, ainda seguido por Toni, abriu uma gaveta cheia de dinheiro e enfiou-o nos bolsos. Entregou uma parte para Toni.
       - Fique com isso.
       -  muito... Pra qu?
       Volte para o interior, faa o que quiser. Aqui no  mais seguro.
       - Voc vai embora j?
       Juliano pegou sua mala e comeou a jogar roupa dentro dela, desordenadamente.
       - Hoje no  meu dia de sorte - disse.
       - Em que tipo de encrenca se meteu?
       - Aquela que d cadeia. Eu ia muito bem at que pisei numa casca de banana.
       Tocaram a campainha.
 Juliano estremeceu todo e disse:
       - Deixe tocar.
       Novos toques insistentes. Os dois permaneciam imveis.
       - Quer que eu espie pelo olho-mgico? - perguntou Toni.
       Juliano no respondeu logo, como se estudasse possibilidades. Deu uma olhada no interior do armrio embutido.
       - Eu espio - decidiu. - Voc fique aqui.
       A campainha cessara. Quem quer que fosse j devia ter ido embora. Mas logo em seguida ouviu um clamor de onda raivosa. A porta, forada num corpo-a-corpo, 
cedeu, rangendo. Vozes estranhas e de Juliano.
       - Voc  o Juliano, no? Ou costuma atender por outro nome?
       - Ei, que invaso  essa? Eu ia abrir a porta. Estava no banheiro.
       - Pensava que podia enganar a polcia o tempo todo, n?
       - Qual  a bronca?
       - Roubou uns cinqenta automveis. Mais nada. 
       - Pensam que sou algum vagabundo? Trabalho no Paradse, vocs j devem ter ouvido falar. Podem perguntar por mim. Tenho referncias.
       - Que belo apartamento tem o Juliano Boa-Pinta! - exclamou outra voz. - Bom gosto, isso ele tem. Quem est aqui com voc, malandro? - perguntou jocosamente.
       - Moro sozinho - disse Juliano.
       - No confia em scios? Disso j sabamos.
       - Tem at raquetes de tnis - observou o outro policial.
       - Sou atleta de Cristo, esportista religioso.
       - Deixe ver se est armado. Eh, que dinheirama nos bolsos! Por que anda com tanto? Tambm no confia em nosso sistema bancrio? Agora vamos dar uma olhada 
l dentro, Juliano Boa-Pinta.
       Toni, que ouvia do quarto, pensou em se esconder debaixo do sof: seria descoberto facilmente. Ento viu o armrio embutido, que Juliano olhara com intenes. 
Entrou porta adentro, encostou-a e ajoelhou-se a um canto, coberto por roupas pendentes de cabides.
       - Aqui  o espao de lazer do malandro - disse um dos policiais. - Som, tev, vdeo e tudo o mais.
       - Vamos espiar o quarto de empregada.
       Passos se distanciando. Logo depois os tiras voltavam.
       - Ele  mesmo de agir sozinho - disse um.
       - Por isso que foi difcil te pegar,  Boa-Pinta.
       - E as armas, onde guarda? - quiseram saber.
       - Que negcio  esse de armas? - protestou Juliano. Sou contra violncias. Se h algum mal-entendido a gente at podia acertar os ponteiros, respeitosamente.
       Os policiais riram, afastando-se.
       - Voc fala como se tivesse dinheiro... Por acaso encontrou algum com ele?
       - Nada, Borba. Ia fugir sem nenhum...
       - Vo ficar com meu dinheiro! Ladres!
       - Vamos embora.
       Toni saiu do armrio. S ento pde respirar profundamente. Agora foi sua vez de beber gua. Espiou pelo visor: ningum. Apanhou tudo o que lhe pertencia 
e saiu do apartamento. Na porta havia um racho de ponta a ponta; a fechadura voara. Subiu um andar e chamou o elevador de servio. Se por algum motivo os policiais 
voltassem, no o encontrariam no corredor.
       A porta, outro susto: o zelador.
       - Sabe que a policia levou seu amigo?
       - Estou levando as roupas dele  delegacia.
       - Com voc no houve galho?
       - No, vou continuar morando aqui.
       Antes de Toni chegar  rua, o zelador comentou:
       - Sempre me dava gorjetas. Parecia boa gente.
       - Com o dinheiro dos outros, mas era. Bem, vou levar as roupas - disse Toni, afastando-se com a mala.
       Sentindo-se seguro, parou num bar para tomar caf. Pela segunda vez em to pouco tempo, Toni livrara-se das grades, graas mais s circunstncias que  sua 
esperteza. Deviam ser as rezas de sua me. Mas o "quase", o "triz", o "por um segundo" no se repetem indefinidamente. Se quisesse permanecer na capital, e j contava 
com o aval de dona Amlia, teria de abrir mais os olhos.
       Mas outra expresso muito comum o assaltou ao terminar o caf: e agora?        
       
24.  PROCURA DE TONI

       Silvano estacionou o carro  porta Paradise e entrou. Hora de pouco movimento, os garons encostados ao balco. Toni no estava entre eles. Deu um giro pelo 
interior da casa, passou pela pista de dana. Perguntou a um dos garons mais idosos, com jeito de chefe.
       - Toni est aqui?
       Os olhos do outro se acenderam.
       - Acho que no vir mais.
       - No trabalha todos os dias?
       - Disse que talvez no venha mais aqui. Ele e Juliano Boa-Pinta. Acho que tinham negcios. Toni mal entrou e j fez dupla com Juliano. Os estudantes gostavam 
de suas bagunas e as gorjetas choviam. Juliano dizia que tinham estilo... Mas eram espertos, s isso.
       Silvano viu um rostinho bonito no caixa, algum que queria depor. Aproximou-se.
       - O senhor  da polcia? - ela perguntou.
       - No, no sou.
       - Aquele garom  um invejoso. Falava mal de Toni? Juliano podia ser um ladro, mas no o Toni! No acredito que esteja envolvido nesse negcio.
       - Foi acusado de roubar carros?
       Virgnia avanara o sinal. No devia ter aberto a boca.
       - Olhe, eu no sei de nada, mas quanto a Toni, garanto...
       O tal garom acercou-se:
       - Ele trabalhava aqui sem documentao. No sabamos seu nome completo. Apenas Toni. Acho isso suspeito. E por que sumiu daqui, se era Juliano o puxador?
       - Esse Juliano roubava automveis?
       - No leu o jornal? Juliano saiu com fotografia e tudo.
       - A reportagem fala de Toni?
       - O jornal diz que Juliano trabalhava sozinho. Mas se Toni sumiu... Depois, eram unha e carne. Muito ligados. Sabe como  essa gente, um protege o outro. 
Mas quem  o senhor? Parente de Toni?
       Silvano no quis pisar no atoleiro.
       - Parente, eu? - sorriu. - Presto assistncia a jovens transviados. Oriento.
       - Espcie de Exrcito de Salvao?
       - Isso, voc chegou l. J vou indo.
       Imediatamente Silvano regressou ao hotel levando um jornal. Ligou para Vila Grande. Seria o segundo interurbano daquele dia. No primeiro dissera ao pai que 
Toni trabalhava como garom num bar e que perdera definitivamente a namorada.
       - Pai,  o Silvano.
       - Fale, filho.
       - Tem encrenca do lado de Toni. Um amigo dele, garom do bar, foi preso como puxador de carros.
       - Puxador de carros? Como se chama? - perguntou Antero, ansioso.
       - Juliano. Est nos jornais de hoje.
       - Antnio est envolvido?
       - S o que se sabe  que sumiu do emprego.
       - A polcia anda atrs dele?
       - Pelo que sei, no. Toni trabalhava sem registro. No bar ningum sabe seu nome completo.
       - Vou ler os jornais...
       - Gostaria de continuar aqui mais algum tempo. Fui convidado para uma festinha no apartamento de Raquel. So pessoas muito finas. Dr. Ricardo diz que conheceu 
o senhor a em Vila Grande.
       Silvano desligou e em seguida fez outra ligao.
       - Raquel? Silvano. Falei com o velho. Tudo bem. Vou ficar mais uns dias em So Paulo. Posso apanh-la na sada da faculdade?
       

25. DONA AMLIA SOFRE, SOFRE, SOFRE

       Seu Antero saiu um pouco mais cedo da transportadora. Encontrou sua mulher dando ordens para as empregadas. Chamou-a para o jardim-de-inverno, onde ele gostava 
de ter conversas ntimas.
       - Silvano telefonou - foi dizendo. - E deu algumas notcias sobre Antnio. Vinha trabalhando como garom num bar. Quando a namorada dele soube, acabou a festa.
       Dona Amlia procurou no se abalar.
       - O que ela esperava? Que Toni fosse algum executivo? Aos dezoito anos?
       - Mas a histria infelizmente no acaba a - disse, entregando-lhe o jornal. - Acho que se fez levar pelas ms companhias. Um amigo dele, Juliano, foi preso. 
Roubava carros.
       - Toni est implicado?
       - Pode ser, ele desapareceu do bar.
       Dona Amlia pegou o jornal. Leu.
       - No fazem nenhuma referncia a Toni.
       - Sorte. Antnio trabalhava sem registro.
       - No acredito que meu filho esteja nisso.
       -  melhor encarar a realidade. Se voc est preocupada, eu tambm estou. Afinal, tenho um nome a zelar... Sou um comerciante de nome limpo.
       Dona Amlia acusou o marido:
       - A culpa de tudo isso foi sua.
       - Minha?
       - Se no tivesse forado Toni a estudar contabilidade, nada disso teria acontecido. Voc motivou a fuga e tudo o que aconteceu depois.
       Seu Antero perdeu o controle, todo agitado.
       - Eu, o culpado? Essa  boa! Se o Antnio est trilhando esse caminho,  porque tinha inclinao para isso, estava no sangue.
       - No h ladres em minha famlia.
       - Eu fui ingnuo em querer que Toni seguisse uma carreira. Mas ele que fique tranqilo. Se voltar, no o obrigarei a estudar mais nada. E nem vou querer que 
trabalhe na transportadora, ouviu? Seria perigoso deixar o cofre perto dele.
       Dona Amlia tambm se descontrolou.
       - Pode ficar descansado. Toni no ir trabalhar com voc. Eu no deixarei, desta vez. Farei com que estude o que quiser. Que siga a profisso que escolher! 
- bradou.
       - No s minhas custas - rebateu Antero. - Ele que trabalhe e pague seus estudos. De mim s ter teto, comida e mais nada.
       Dona Amlia, irritada, foi para o quarto. Jogou-se na cama.
       - Deus, o que fao?
       Pensou depois em Toni voltando para casa e pedindo desculpas ao padrasto. E que humilhao diante de Silvano! Teria de levar o resto da vida de cabea baixa, 
como um marginal, um coitado, dentro da prpria casa. E para ela tambm a convivncia seria intolervel. Alguma coisa, muito corajosa, devia ser feita.


26. TONI ENTRE MILHES

       Toni nunca sentira antes a sensao opressiva de estar completamente s. Os milhes de habitantes da cidade eram apenas sombras que passavam. Tomava caf 
nos bares, sentava-se nos bancos das praas. Vagou assim at o anoitecer. Passou a noite num hoteleco infestado de insetos. Mas faltou-lhe coragem para procurar 
emprego na manh seguinte. Almoou num restaurante de segunda classe, entrou num cinema. Certamente pensava em voltar a Vila Grande, mas no se decidia. Sentado 
numa cadeira de bar, leu a notcia da priso de Juliano. O jornal tratava-o com intimidade, no era a primeira vez que freqentava as pginas policiais. Era o Juliano 
Boa-Pinta, conhecido assim entre os puxadores de carro. Voltou para o hoteleco, felizmente com dinheiro para sobreviver alguns dias. Mas a solido comeou a doer 
tanto, ficar to pesada e cinzenta que precisou conversar com algum. Decidiu esperar Virgnia na esquina do Paradise, sabendo a hora em que ela saa.
       - Virgnia!
       A garota correu para abra-lo.
       - Toni! Que bom que est em liberdade!
       - Imaginava que eu estivesse preso?
       - Nem sabia o que pensar.
       Havia perguntas urgentes.
       - Algum me procurou?
       - Um rapaz aloirado, elegante...
       - Silvano, o filho do meu padrasto. Algum mais?
       - Outro, moreno, atarracado. Conversou s comigo. Disse que era amigo de Juliano, mas no acreditei muito. Podia ser um tira. Mas fale de voc, o que tem 
feito? Mas no aqui. Vamos a um restaurante. Convite meu. Eu pago.
       Sentar-se com Virgnia num restaurante foi o primeiro momento de satisfao para Toni desde seu rompimento com Raquel.
       - Nem sabia que Juliano roubava carros.
       - Acredito, Toni.
       - Sem que eu prove nada?
       - Conheo as pessoas. No dizia que no confiava em Juliano? Mas onde est morando?
       - No paraso dos pernilongos, uma hospedaria.
       - Conheo uma penso limpinha. Morei nela com minha me e minha irm. No  cara.
       - Me d o endereo.
       - Levo voc l depois do almoo.
       - Bem instalado, terei mais disposio para procurar emprego.
       - Que tipo de emprego?
       - Qualquer um que no tenha um Juliano por perto.
       Terminado o almoo, Virgnia levou Toni  penso. Havia um quarto vago. Apesar de modesto, gostou da aparncia do novo domiclio. Voltou para o hotel a fim 
de pegar a mala. Ao esperar um txi para retornar  penso com a bagagem, teve a impresso de que algum, na caIada, observava-o com nervosa ateno. Mas foi uma 
impresso breve: logo parou um txi e esqueceu o fato.
       Mais bem acomodado e bastante confortado pela companhia de Virgnia, Toni pde descansar, preparando-se para nova procura de emprego. No  fcil conseguir 
um numa cidade em que milhares de pessoas movimentam-se  caa de oportunidades. E  ainda mais difcil quando no se tem habilitao profissional, como msico, 
arquivista, mecnico, professor, publicitrio, revisor ou tcnico em qualquer coisa. Toni, aos dezoito anos, no era especializado em nada. E quem  nessa idade? 
Tinha de correr casas comerciais e perguntar se precisavam de empregado. Foram dezenas, at que teve a idia de apresentar-se a uma livraria, j que gostava tanto 
de leitura. At o contato fsico com o livro agradava-o. No teve sorte na primeira livraria, mas na terceira, recm-inaugurada, muito ampla, na qual tambm se vendiam 
discos, foi bem recebido.
       - Apenas exigimos um ms de experincia - disse o gerente.
       Toni agarrou a chance, embora o ordenado bastasse apenas para casa, comida e conduo. Dinheiro para diverses e continuar os estudos, nem pensar.
       - Posso comear j?
       - Pode, mas antes tem de saber onde ficam as sees. Aqui na frente esto os ltimos lanamentos, as novidades. L est a estante de fico nacional. Mais 
adiante, fico estrangeira.
       Toni foi percorrendo a livraria. Estantes de livros tcnicos, psicanlise e psicologia, sociologia, histria, economia, cincias, livros de arte, biografias, 
poesia, culinria, obras para infncia e juventude, alm dos didticos. E no fundo, toda uma ala de livros usados, um sebo muito bem organizado.
       Logo ao primeiro giro pela livraria, parando em cada estante, Toni sentiu que poderia ser um bom balconista, capaz de localizar depressa qualquer livro que 
lhe pedissem. Na parte da tarde j comeou a atender  freguesia. E ficou contente ao vender o primeiro livro sem o auxlio dos trs outros balconistas. No final 
do expediente, s sete da noite, recebeu um sorriso do gerente, que valeu pela garantia do emprego.
       No dia seguinte, Toni ligou para o Paradise.
       - Virgnia? Toni. J estou trabalhando.
       - Onde?
       - Numa livraria do centro. E estou indo bem, embora o ordenado seja deste tamanhinho...
       - Puxa, estou contente!
       - Algum me procurou?
       - Ningum... Ah, aquele cara esteve aqui.
       - Silvano?
       - No, o outro. Mas no fez perguntas, s veio dar uma espiada.
       - Ser da polcia?
       - No sei.
       - Como  mesmo o cara?
       - Moreno, baixo, troncudo... E tem uma mancha preta no rosto.
       - No imagino quem seja.
       - Sbado voc trabalha?
       - S at a uma hora.
       - Ento vamos nos ver no sbado.
       - Feito.
       - Eu ligo pra penso. At!
       Em seguida, Toni ligou para a me, em Vila Grande. Divina, que atendeu ao telefonema, reconheceu-lhe a voz e chamou dona Amlia depressa. Divina era a nica 
pessoa em sua casa e na cidade com quem dona Amlia confidenciava.
       - Toni, como est?
       - Estou bem, me. Trabalhando numa livraria.
       - E como est de sade?
       - Nunca estive melhor.
       - Silvano encontrou voc?
       - No, me, nem vai encontrar. Ele no voltou a Vila Grande?
       - No ainda. E Antero no tem comentado sua demora. Toni... O que foi que aconteceu? Lemos no jornal sobre a priso de um amigo seu, daquele bar. Silvano 
e Antero pensam que voc est envolvido.
       - Deixe que pensem.
       - Voc no est mesmo implicado, filho?
       - Esse Juliano era mesmo um ladro de carros. Mas eu no sabia. Ele foi preso, voc sabe, mas comigo no houve nada. Alis, a polcia nem soube de mim.
       - Era no apartamento dele que voc morava?
       - Era.
       - E no sabia desses roubos?
       - O jornal disse que ele agia sozinho. E era verdade. Guardava o maior segredo.
       - Mas no h perigo de ele dizer seu nome  polcia?
       - Acho que Juliano no faria isso. Alm do mais, nem ele nem ningum no Paradise sabe meu nome completo. A no ser que Silvano me delate.
       - Silvano foi a So Paulo para trazer voc de volta. Antero teme algum escndalo. Como homem de negcios que  no gosta de complicaes com a polcia.
       - Me, vou desligar. As ligaes interurbanas so caras. Outro dia ligo de novo.
       - Toni, se quiser que eu v encontr-lo, se precisa de mim a seu lado...
       - Que idia, me! Como disse, estou bem. Tudo isso vai passar. No sei como ou quando, mas vai passar.
       Toni desligou. O telefone e os pensamentos. Precisava de muito sono e repouso. Mas, no dia seguinte, outra vez, atravessando uma galeria, rumo ao emprego, 
teve a impresso de que o observavam. Apressou os passos. Mais tarde, olhou para trs. No viu ningum.


27. 0 PASSADO AINDA NO PASSOU TOTALMENTE

       Toni gostava de se ver entre os livros em seu novo emprego.  hora do almoo, sempre lia, readquirindo o antigo hbito. Assim, podia aconselhar bons livros 
aos fregueses, o que poucos balconistas sabem fazer. E lhe deram licena de ler na penso os livros usados. Esse era seu divertimento alm dos freqentes encontros 
com Virgnia, marcados em lanchonetes e portas de cinema. Ela adorava filmes e no queria perder os mais comentados. Com Virgnia ele aprendeu a apreciar os melhores 
diretores e a distinguir o estilo de alguns. Ela o ensinou a ver com mais profundidade uma arte que at ento julgava mero entretenimento.
       Certa tarde, numa lanchonete, meio assustada, Virgnia disse a Toni:
       - Acho que ando sendo seguida.
       - Seguida? Por quem?
       - Por aquele rapaz baixo, troncudo, que apareceu no Paradise procurando por voc.
       - Eu tambm tive essa impresso mais de uma vez - disse Toni. - Mas no deu para observar como era essa pessoa. Duma coisa, porm, podemos ter certeza:  
a mim que procura. Segue voc para me localizar.
       Virgnia admitiu que sim. Muito nervosa.
       - Deve ser um tira.
       - S pode ser. Ou ento...
       - Ento o qu?
       - Um detetive particular.
       - Detetive particular?
       - Que Silvano tenha contratado pra me descobrir.
       - Ele faria isso? - disse Virgnia.
       - No consigo ver outra hiptese: ou  um tira ou algum a servio de Silvano. Mas sendo um ou outro, tenha muita ateno quando vier me encontrar. Olhe dos 
lados. No siga sempre pelo mesmo caminho. E nunca diga a ningum que temos nos encontrado.
       - J venho tomando essas providncias. Mas  estranho, no?
       - O que  estranho?
       - Que seu padrasto tenha tanto empenho em localizar voc. Ser por insistncia de sua me?
       - Por insistncia dela, no - respondeu Toni. - Ela agora at prefere que eu no volte. No quer me ver humilhado. Ele e Silvano agem assim por medo de que 
eu me meta em confuses e prejudique o bom nome da empresa.
       Virgnia no concordava totalmente com a explicao.
       - Se a empresa dele tem bom nome, por que temer tanto assim? No acha exagero?
       - Acho, sim, mas meu padrasto  um teimoso, desses que quando se aferram a uma idia no largam mais. Ele me quer amarrado a Vila Grande e pronto.
       Virgnia respirou fundo:
       - Vamos esquecer esses dois, seno estragamos o passeio. Onde iremos depois da lanchonete?
       - Escolha.
       - H um teatro baratinho a perto, e a pea parece boa. Vamos, pra variar um pouco?
       Toni pediu a conta e imediatamente dirigiu-se com Virgnia ao teatro. Assistiram a uma pea teatral divertida, dessas que agradam em cheio. Mas em nenhum 
momento o rapaz deixou de pensar no homem baixo e troncudo que o seguia e de imaginar a servio de quem o fazia. O passado, que desejava esquecer, no passara totalmente.


28. ALGUM QUE CHEGA FELIZ

       Dona Amlia andava levando uma vida tensa, insuportvel. Seu nico prazer consistia nos telefonemas, raros, do filho. Com o marido falava pouco, apenas o 
suficiente. E se falassem era para se atritarem, pois o nome de Toni sempre vinha  baila. Essas brigas terminavam comumente com as mesmas palavras.
       - Por que no esquece Toni duma vez? Deixe-o ficar em So Paulo que tudo acabar bem.
       - Depois das confuses que criou? Primeiro com o tio, um salafrrio, depois com um amigo, puxador de carros. Se prosseguir nesse caminho, logo a polcia estar 
aqui.
       Dona Amlia, como Virgnia, tinha a mesma estranheza.
       - E no que isso poderia prejudicar a empresa? No entendo tanto receio. Pode explicar?
       Antero no explicava nada. O desejo de ver o enteado de volta parecia obsesso pura, sem motivos evidentes. O fato  que essas contendas, mesmo breves, separavam 
ainda mais os dois.
       Enquanto isso, dona Amlia e Divina ficavam mais amigas. Certa vez, a me de Toni revelou seus planos:
       - Sabe o que acabo fazendo? Indo embora para So Paulo viver com meu filho.
       - Seu Antero no vai permitir isso.
       - E terei de pedir autorizao? Vou embora simplesmente.
       Divina, aproximando seu corpanzil, ponderava:
       - Dona Amlia, a senhora no devia se precipitar. Tem todo conforto aqui, uma casa to boa...
       Dona Amlia deu-lhe razo quanto  precipitao. Mas uma bela casa, conforto, um guarda-roupa farto j no significavam muito para ela. Com Jos no tivera 
nada disso, porm, comparando uma vida a outra, conclua que fora mais feliz na modstia do primeiro casamento.
       - No vou me decidir agora porque no sei onde Toni est. Mas j no sinto apego por nada nesta casa.
       Depois de se demorar uns quinze dias em So Paulo, Silvano voltou todo descontrado, sorridente, mais senhor de si do que nunca.
       - Viu Toni?
       - No, dona Amlia. Acabei perdendo a pista dele. Por mim deixava tudo como est.
       E mais tarde repetiu isso para o pai, quando os trs jantavam.
       - Mas no podemos deixar aquele moleque se aliando com ladres. Quer que nos destrua?
       Silvano j no parecia interessado no retorno do meio-irmo.
       - Dei meus passos, mas no o localizei. Se Raquel souber de alguma coisa, me informar.
       Dona Amlia olhou para o enteado cheia de desconfiana.
       - Viu Raquel muitas vezes?
       Silvano ficou embaraado, deixou que a pergunta afundasse numa pausa, mas, alinhando os ombros, pondo-se muito firme na cadeira, buscando o olho a olho, declarou:
       - Ns ficamos muito amigos. Mais que isso, at...
       - Esto namorando? - perguntou o pai.
       - Estamos. - E voltando-se para a madrasta, explicativo: - No desejei passar Toni pra trs. Nem ela. A gente se viu e um gostou do outro. Raquel tem inclusive 
muita pena de Toni...
       Dona Amlia reagiu, ofendida, ruborizada:
       - Ela no precisa ter pena do meu filho. Que guarde sua compaixo para outro.
       - Est certo - disse Silvano. - Retiro a palavra pena. Mas ela foi at delicada perto do que sentiu realmente. Sabe o que ela sentiu? Vergonha. Vergonha por 
ter namorado um rapaz que s lhe disse mentiras e que s envolveu com marginais.
       Dona Amlia quis rebater, mas falou apenas como me:
       - Toni no  ladro,  um rapaz direito, ele foi enganado, s isso.
       Antero tratou de desviar a conversa, falando de seus caminhes, perguntando ao filho se vira os ltimos preos na capital. Silvano logo quis provar que no 
viajara apenas para namorar.
       - Vi, sim, pai. Esto custando uma fortuna. Acho que no vai dar para aumentar nossa frota. Trouxe comigo uma relao de preos. Quer ver?
       - Comprarei caminhes usados. Foi assim que fiz a transportadora.
       Dona Amlia afastou seu prato e recusou a sobremesa que Divina lhe oferecia. Voltou para o quarto. Pobre Toni! Raquel namorava agora a pessoa que o filho 
provavelmente menos apreciava. Fatos assim, temia, poderiam acabar fazendo de Toni um revoltado, quem sabe um ressentido. Ento...

29. UM SUSTO MAIOR QUE O DIA

       Toni, supondo que o tio j estivesse em liberdade, voltou ao edifcio onde haviam morado. Estava disposto, inclusive, a procur-lo pelos sales de sinuca, 
caso no obtivesse notcias. Esse esforo no foi necessrio. O zelador do prdio estava bem informado sobre Waldo.
       - Ele continua residindo na Deteno...
       - Tem certeza?
       - Conversei outro dia com um colega dele, amigo de trapaas no salo. Disse que Waldo andou engessado muito tempo por causa da surra. E ainda anda meio quebrado. 
Mas continua em cana devido a outros casos.
       Toni agradeceu e afastou-se. Na penso, depois de contar o que restava do dinheiro que Juliano lhe dera, retirou algumas cdulas e enfiou-as dentro de um 
envelope. A tarde telefonou para diversas delegacias para localizar o tio. Obtendo a informao desejada, selou o envelope e naturalmente sem escrever nome e endereo 
do remetente - endereou-o ao tio, com um al num pedao de papel: "Um presentinho do ex-parceiro".
       Realmente Toni andava com saudade do malandro tio Waldo. Com pouca gente para conversar, perdido na cidade, lembrava-se muito dele e at ria das suas patiaes 
e calotes. Tinha certeza de que mesmo se vivesse cem anos no o esqueceria. E se um dia chegasse a ficar bem na vida, retiraria o tio da cadeia e lhe daria um teto 
com uma mesa de snoocker para ele jogar enquanto pudesse segurar um taco.
       Toni, feliz pelo seu gesto, trabalhou aquela tarde com bastante desenvoltura na livraria, sempre recebendo os fregueses com um sorriso. Alm do mais, teria 
outro encontro com Virgnia  noite.
       - Que livro policial voc me aconselha?
       Toni viu a seu lado um homem de pouco mais de trinta anos, baixo e troncudo. Tinha uma mancha escura do tamanho de uma moeda na face esquerda. Vestia-se um 
tanto  antiga, com camisa de colarinho e gravata.
       - Temos muitos - disse Toni.
       - Queria um sobre puxadores, ladres de automveis - acrescentou o fregus em voz baixa, como se fosse uma preferncia sigilosa.
       Ento Toni percebeu de quem se tratava: o homem baixo e troncudo...


30. 0 HOMEM DA MANCHA PRETA

       Toni procurou controlar-se no respondendo imediatamente, fingindo lembrar-se de um livro sobre ladres de carros. A voz no tremeu, firme:
       - Sobre esse tema no temos nenhum.
       O homem da mancha preta continuou em tom baixo:
       - Ser que no tem mesmo, Toni?
       Toni no pde camuflar a surpresa.
       - Sabe meu nome?
       - Precisamos conversar - disse o outro. - No aqui, que voc tem de trabalhar. Prefere na penso? Bom, conheo um bar aqui perto tambm...
       - Mora l na penso? - perguntou Toni, ciente de que a resposta no seria afirmativa.
       - No, Toni, apenas sei onde mora. Tenho seguido voc por causa de um assunto de seu interesse. Quer que passe s sete? E quando termina seu horrio, no?
       - Est certo - concordou Toni.
       - Mas no saia antes, nada de bancar o esperto. Como disse, o assunto lhe interessa. At mais tarde!
       Toni ficou vendo o homem da mancha preta no rosto sair da livraria, calmo, no passo natural de qualquer fregus. Quem seria ele? Se fosse algum da polcia 
certamente no marcaria encontro. E como agiria um detetive particular contratado por Silvano? Havia ainda outra hiptese, no aventada: a de algum que sabendo 
de seu relacionamento com Juliano desejasse chantage-lo. Mas chantagear um modesto funcionrio de livraria? A no ser que o homem pretendesse que Toni roubasse 
a caixa, no muito gorda, do estabelecimento.
       O resto daquele dia foi febril e angustiante para Toni. Os outros balconistas perceberam seu estado e perguntaram-lhe se estava doente. Disse que sim. O gerente, 
amigvel, props dispensa, se quisesse.
       - Apenas um resfriado - explicou Toni.
       No adiantaria fugir do encontro. Precisava saber quem era o homem da mancha preta e o que pretendia.
       Pouco antes das sete o homem reapareceu na livraria. Fingiu procurar um livro.
       - J posso ir - disse-lhe Toni.
       Ambos saram, sem palavras, e, cem metros alm, pararam  porta de um edifcio.
       - O bar que falei  aqui - disse o homem da mancha preta. - Fica no primeiro andar. Podemos ir pelas escadas.  pouco freqentado, poderemos conversar  vontade.
       A porta do bar havia um neon verde, imitando letras manuscritas, com o nome do estabelecimento, After Seven-Pub. Um tanto escuro, todo dividido por placas 
de trelia, formando discretos casulos para fregueses que preferiam no ser vistos, o bar tinha um aspecto agradvel. O som morno de msicas dolentes fora graduado 
para no perturbar o papo dos poucos fregueses.
       - Gosto daqui - disse o homem da mancha preta.
       Mal se acomodaram, Toni perguntou:
       - Quem  voc?
       - Pode me chamar de Borges. O que quer beber?
       - Nada.
       - Eu tomarei um conhaque - disse o outro, j fazendo um sinal para o garom. Fez o pedido e em seguida acendeu um cigarro. - No h muitos bares tranqilos 
como este. Aqui se fazem bons negcios.
       - Vamos logo ao assunto - pediu Toni.
       - Espere o conhaque.
       - Voc  da policia?
       - J trabalhei na polcia, faz tempo.
       -  detetive particular?
       Veio o conhaque. Ele Toniou um gole.
       - Se sou detetive particular? No.
       - Voc me conhece de onde? - perguntou Toni, comeando a irritar-se.
       - No conheo voc de nenhum lugar. Apenas temos um amigo em comum. Um belo sujeito.
       - Que amigo?
       - O hilrio Juliano Boa-Pinta! Que tipo!
       - Juliano?
       - Mas no se preocupe. Ele falou muito bem de voc. Juliano no perde tempo com pessoas que no merecem.
       - Juliano, pelo que sei, est preso.
       - Est, sim. Acho que vai pegar alguns anos. Nos encontramos na cadeia.
       - Esteve preso tambm?
       - Quando ele entrava, eu saa. Mas esse conhaque est bom mesmo. No quer um?
       - No - respondeu Toni com firmeza. - Juliano lhe falou de mim?
       Borges fez sinal ao garom pedindo outro conhaque.
       - No vou me embriagar - garantiu. - Sempre paro no segundo. Profissional que se preza no pode beber demais. Juliano fez-lhe os maiores elogios. Disse que 
um tipo como voc no se encontra sobrando por a.
       Toni tomou uma atitude defensiva.
       - Eu nem sabia da vida de Juliano... Pensei que fosse apenas barman.
       - Ele me disse tudo sobre voc, inclusive que andou metido com patiadores de sinuca.
       Toni lembrou-se que contara a Juliano, superficialmente, o entrevero com a gangue do Turco, sem mencionar o tio como um dos personagens.
       - Isso foi puro acidente, no estava envolvido.
       - Essa  a tcnica: negar tudo sempre.
       Toni esperou que o garom servisse a segunda dose de conhaque para Borges e perguntou:
       - Mas o que quer comigo? Por que me tem seguido?
       - Para lhe propor um negcio.
       - Trabalho como balconista e estou satisfeito.
       - Um cara esperto como voc no pode se dar por satisfeito vendendo livros. At j tentou o golpe do ba namorando uma ricaa, no?
       Com que inteno Juliano contara a Borges toda a sua vida?
       - Eu gostava dela de verdade, no havia golpe algum. O que mais lhe disse Juliano?
       - Que posso confiar em voc.
       - Confiar pra qu?
       - Me encomendaram um servio muito rendoso e vou precisar de um parceiro.
       Toni fechou a cara:
       - Acho que escolheu o parceiro errado.
       - Voc negaria um favor ao seu amigo Juliano? Ele lhe deu emprego, casa e comida, emprestou-lhe carros e deu-lhe tambm um monte de dinheiro. Chegou o momento 
de voc reembols-lo.
       - Nunca lhe pedi nada.
       -Nem foi preciso. Ele tem um grande corao.
       Toni fez meno de levantar-se.
       - No estou interessado. Esse no  o meu ofcio. Acho que a conversa acaba aqui.
       Dessa vez, o semblante de Borges se modificou. Perdeu o ar socivel. Ficou duro.
       - Juliano vai precisar de dinheiro para pagar advogado e voc vai ajud-lo.
       Toni decidiu testar a ameaa:
       - E se eu me recusar?
       - Juliano dir  polcia que trabalhava em dupla. Voc vai se complicar. - Borges partiu para a segunda parte, a complementao da ameaa: - E no adiantar 
desaparecer da livraria e da penso. A polcia ir atrs de voc.
       Toni, em vez de se amedrontar, cresceu, falou alto:
       - Mas por que eu? Por que no convida outro? Algum que seja do ramo, com experincia?
       - Quem lembrou seu nome foi Juliano. Justamente porque nunca esteve preso, tem a barra limpa, pinta de rapaz que teve bero. Bandido com cara de bandido azara 
os negcios. Alm do mais, voc tem um probleminha com a famlia, no tem? Fugiu e no quis voltar lambendo os ps de ningum. Pois essa  a oportunidade de erguer 
o queixo, dar a volta por cima. E isso, como se faz? Com dinheiro, no? Com muita gaita.
       - Volto a dizer que no me interessa.
       - Garanto que no vai ser uma longa associao. Preciso de voc apenas para uma jogada. Como disse, sa da cadeia e estou desenturmado. Alm do mais, no 
quero vivaldino comigo, gente j manjada e que acaba sempre aprontando. Mas vamos ao principal. Trata-se duma encomenda. A gente pega, entrega e recebe.
       - Nem quero saber...
       - Servio limpo, fcil. O fregus  bom. Trabalhei pra ele noutros tempos. Paga o que ficou combinado.
       - Est louco se espera poder contar comigo.
       O homem da mancha preta mudou o tom de voz, agora soturno:
       - Voc  que est louco se pensa escapar do compromisso.
       - Disse compromisso?
       Borges continuou soturno, fixando Toni nos olhos.
       - Quer que seu amigo Juliano se trumbique na cadeia, fique mofando l? Depois de tudo o que recebeu dele? Em nosso meio temos tica, garoto. Ajuda se paga 
com ajuda. Voc est devendo.  sua vez de pagar.
       - Mas no sou do ramo, Juliano no lhe disse isso? Morro de medo s em pensar.
       - Esses que so dos bons, os que tm medo, responsabilidade. Os corajosos, de peito aberto, so todos dbeis, xaropes. Nunca topei com um que tivesse a cabea 
no lugar.
       - Pode ter razo - disse Toni, - mas no entro nessa. 
       Borges fez uma pausa em que consumiu o que restava da dose de conhaque e disse  queima-roupa:
       - Ento vou te dedurar, boy.
       - O que quer dizer com isso?
       - Dar sua pista  polcia. Sei onde trabalha e onde mora. A gente sempre d um jeito com aqueles que se recusam a cooperar. Pode ir, chapinha. O caminho est 
livre.
       Toni no se ergueu da cadeira.
       - Fale com Juliano, ele vai compreender.
       - Vai  ficar danado com voc, isso sim. Afinal quem me ps na sua pista foi ele.
       - No adianta me dedurar. Eu desapareo e a polcia no sabe meu nome.
       - Isso  verdade, no sabe. Mas no vai ser difcil pra ela encontrar sua famlia no interior. Como chama mesmo sua cidade? Vila Grande, no ? Pois ento...
       Toni percebeu que estava cercado.
       - Disse que  um negcio s?
       - Se gostar ter mais. Mas basta apenas um para pagar sua dvida. E d tempo para que eu me enturme de novo. Ao contrrio de Juliano, no sei agir sozinho. 
Me saio melhor em dupla. O chato  quando o outro  esperto demais. Mas voc no far isso, tem o rabo preso.
       Toni ainda procurava livrar-se de Borges.
       - Eu no iria ajudar muito.
       - Iria, sim. Tem pinta de garoto de bem e sem nenhuma passagem pela polcia. E pelo que disse Juliano, tem uma cabecinha privilegiada, aprende tudo depressa, 
diferente desses miolos-moles, destrambelhados, que andam por a.
       O plano poderia ter um furo e ento seria mais fcil escapar. Toni perguntou:
       - O que pretende fazer? No entendi bem.
       - Como disse, o servio  simples. O nosso trabalho ser apenas o de pegar o carro, cair na estrada e entregar. Depois, dividimos a bolada em trs, uma parte 
de Juliano. A voc fica desobrigado com ele. Paga sua dvida. E s continua no negcio se quiser.
       - Se tudo  to simples, por que precisa de mim? Sozinho lucraria mais.
       - Como disse, gosto de trabalhar com um parceiro. Mas tem um outro motivo... Sou muito bom para abrir uma porta de carro, fazer ligao direta... Mas  noite, 
numa estrada, no sei se poderia guiar. Ningum  perfeito. E eu no vejo muito de longe. No escuro, ento, sou totalmente cego. Est entendendo melhor agora? Eu 
entro com o tato, para abrir a porta e ligar fios, voc com os olhos...
       Toni ficou pensativo. O outro fez silncio  espera do sim.
       - Ento  s isso?
       - Os bons negcios so simples. Os complicados me assustam. Tudo no passar dum passeio por uma rodovia. Cem quilmetros no asfalto,  logo ali.
       Toni pensava apenas em se livrar daquela situao. O jeito talvez seria passando por ela.
       - Se for s uma vez...
       - Depois do primeiro negcio est livre. Olhe, aguarde minha visita na livraria. Antes preciso duma confirmao do patro. Agora, se quiser, pode ir. Os detalhes, 
ficar sabendo depois.
       Toni levantou-se e mais que depressa saiu do bar. Alimentava uma vaga esperana: de que o tal patro de Borges desistisse do plano ou que Borges fosse preso 
antes de aparecer na livraria. Estava deprimido.


31. 0 MEDO S VEZES APROXIMA AS PESSOAS

       Aquela noite Toni tinha um encontro com Virgnia. Falaria ou no de Borges para ela? Decidiu que no. Se falasse, teria de ser por inteiro, incluindo a participao 
que teria no assalto. No desejava tambm que ela sofresse com seus problemas. Esperou ansiosamente pelo momento do encontro porque no queria estar s. Necessitava 
da companhia de algum, de esquecer por algumas horas ao menos aquele impasse todo.
       Virgnia compareceu  hora marcada. Ao contrrio de Raquel, nunca o fazia esperar.
       - Onde vamos? - ela perguntou.
       - Voc que faz o programa - respondeu Toni.
       - Hoje estou sem tempo. Preciso estudar. Vamos a uma lanchonete e s.
       Toni preferiu assim: num cinema ou teatro no conseguiria concentrar-se. Foram  lanchonete de sempre.
       Logo Virgnia fez a pergunta temida:
       - Tem visto aquele tipo?
       - No.
       - Pode ser que tenha sumido pra sempre.
       - Pode ser - Toni fingiu admitir.
       Embora Virgnia falasse muito, contasse muita coisa, Toni no se mostrava bom ouvinte. Continuava tenso, vendo Borges em toda parte. E uma dvida persistente 
o torturava: ele o deixaria realmente em paz depois do roubo?
       - Voc est bem mesmo? - perguntou Virgnia. - Parece com o pensamento longe.
       - Impresso sua. Estou bem.
       Virgnia, talvez por no se convencer disso, decidiu voltar mais cedo para casa. Toni acompanhou-a, desejoso mesmo de estar s. J que no podia dividir com 
ela sua angstia, o que lhe adiantava a companhia de Virgnia?
       Chegando  penso, decidiu telefonar para Vila Grande. Mas interrompeu a ligao antes de ser completada. A voz de sua me seria to intil como fora a presena 
de Virgnia. Enfiou-se na cama para dormir, porm aquela seria sua mais longa noite de insnia.


32. AREIAS MOVEDIAS

       Toni movimentava-se na livraria com os olhos na porta,  espera de que Borges entrasse a qualquer momento. Mas ele no apareceu no perodo da manh nem no 
da tarde. No dia seguinte tambm no. Toni comeou a ter esperanas de que Borges desistira do plano, ou que por algum motivo fora preso ou tivera de fugir da cidade. 
Teve ento a idia de mudar de endereo e largar o emprego. Firmou-se nessa idia e passou a procurar outra penso.
       - Ol, scio!
       Toni voltou-se: era Borges que entrara na livraria sem que ele visse.
       - No posso conversar agora - disse Toni.
       - Espero no bar no fim do expediente. J est tudo combinado.
       Toni foi dizer qualquer coisa, mas no teve tempo:
       Borges afastava-se, ligeiro. Pensou em abandonar a livraria naquele momento, fugir. Mas, se o fizesse, Juliano o denunciaria, por vingana. No havia sada: 
teria mesmo de encontrar-se com Borges no bar.
       Cumprido seu horrio de trabalho, Toni foi ao After Seven. Borges no estava l. Outra vez o imaginou detido, o que seria sua salvao. Pediu um refrigerante. 
Tomou-o todo e Borges no vinha. Se demorasse mais alguns minutos no o esperaria mais. J se dispunha a levantar-se quando Borges entrou. Viu Toni e foi sentar-se 
 sua mesa.
       - Desculpe a demora - disse. E depois de fazer sinal ao garom: - Vai ser amanh. J escolhi a presa e sei onde costuma ser deixada.
       - No vai lucrar nada me incluindo nisso.
       - Sei o que fao. Mas se acalme, chapinha. Voc vai apenas dirigir. A noite, numa estrada, sou o pior motorista do mundo.
       - Repito que  s dessa vez.
       - Vamos nos encontrar na esquina de sua penso s oito. De l iremos ao lugar onde costumam deixar o carro. Depois, a gente pega a estrada.  bom no marcar 
nenhum compromisso para amanh. A gente nunca sabe quando volta.
       - Iremos at onde?
       - Um pouco alm de Campinas. Olhe,  bom no fazer muitas perguntas. Estou te prevenindo. H gente grada metida nisso, que ningum suspeita. E se quer saber, 
eu no sei nem se Juliano sabe quem so os caras, os mandes.
       - No estou querendo saber nada.
       - Melhor assim. Nesse negcio no interessam nomes. Isto  problema para a polcia.
       Toni no suportava a presena de Borges por muito tempo. Seus nervos o repeliam. Levantou-se.
       -        Tem mais - disse o homem da mancha preta em tom frio de advertncia. - Nenhuma palavra para aquela garota, a do Paradise. Mulher no sabe guardar 
segredo, aprenda.
       Toni saiu do bar tonto, sem rumo. Ficou a vagar pelas ruas centrais, imaginando que s o esperto tio Waldo, experiente, poderia aconselh-lo naquela situao. 
Mas tio Waldo estava preso. Desde que chegara  capital, cheio de iluses, nunca se sentira to sozinho. Parecia que o mundo estava coberto por uma grande nuvem 
preta. Um mundo soturno, sem luz. Lembrou-se da imagem dum filme: um homem se afundando em areias movedias. Era essa sua sensao.


33. 0 BURACO NO TEMPO

       O que houve foi um buraco no tempo. J era o dia seguinte e a hora de Toni encontrar-se com o homem da mancha preta na esquina da penso. O rapaz saiu  rua 
como se estivesse a caminho da cadeira eltrica. No viu ningum. Novamente a esperana de que Borges no aparecesse. Breve iluso.
       Um carro estacionou na esquina.
       - Entre, Toni!
       Ele entrou meio de lado, sem conseguir ajeitar-se no assento. Borges percebeu seu mal-estar.
       - Relaxe, boy.
       - Este carro  seu?
       - Roubei para este trabalho. Depois a gente larga em qualquer lugar.
       - Pra onde estamos indo?
       - Periferia. Conheo bem o local. No dormi esse tempo todo. Estive de olho na presa. Sei onde vamos pr a mo.
       Borges dirigia mal, pressionando os olhos como se enxergasse com dificuldade. Precisava mesmo de um motorista, principalmente na estrada. No houve papo durante 
o trajeto. Borges dirigia concentrado, esforo que tornava seu rosto ainda mais sinistro. Vinte minutos mais tarde chegavam a uma vila industrial, pobre e deserta. 
A noite, de uma escurido espessa, enfeiava ainda mais o lugar. Borges fez o carro circular por ruas estreitas e esburacadas. Alcanaram afinal uma praa minscula, 
onde havia uma velha fbrica, os portes escancarados. Diante dela, vazios, dois caminhes estacionados.
       - Voc vai dirigir o maior - informou o puxador.
       - No sabia que se tratava de caminhes.
       - Juliano disse que voc dirige.
       Realmente Toni dissera que era capaz de dirigir "at caminhes", o que no era exato. Na ausncia do padrasto, o que costumava fazer era manobrar caminhes 
de pequeno porte no ptio da transportadora. Nada mais que isso.
       - Acho que Juliano o enganou mais uma vez.
       Borges ignorou o comentrio de Toni. Estacionou o carro e retirou um pano felpudo do porta-luvas. Depois, esfregou-o no volante.
       - Nada de impresses digitais - disse. - Vamos descer.
       - E o carro, fica aqui?
       - No precisamos mais dele. - E saindo: - D uma olhada na chapa.  de Goinia. Isso confundir a polcia. Andando.
       Borges foi  frente. Um padre atravessava a praa. Borges sorriu para ele.
       - Padreco simptico. Fui coroinha. - E fez uma careta de reprimenda. - Tire esse ar suspeito da cara. Quer atrair atenes?
       Passaram por um casal de namorados. Um homem magro atravessou a praa levando um po comprido debaixo do brao. Seguiram at a esquina, Borges lento, sem 
pressa. Toni, a seu lado, no conseguia fazer movimentos naturais, eram todos duros, curtos, dirigidos. Pararam diante de uma tinturaria fechada.
       - Quando a praa ficar limpa a gente se mexe. Mas eu vou na frente. Quando ouvir rudo de motor, da ligao direta, ento voc assume.
       - Acho que no vai dar - disse Toni.
       - Assim que aquele panaca virar a esquina, eu me vou.
       Borges aproximou-se do caminho lanando um olhar panormico pela praa. Abriu a porta, entrou na cabine muito alta e desapareceu dentro dela. Agia curvado 
para ligar o motor. Devia conhecer bem o ofcio. Menos de um minuto depois Toni ouviu o ronco possante do motor. Borges completara a ligao direta. Agora era sua 
vez. Mas no se mexeu.
       O padre voltava. Era desses tipos que embora bonaches so atentos a tudo. Quase no andava, flutuava lentamente. Parou bem diante do caminho, O jeito era 
de quem esquecera alguma coisa. Um co vagabundo foi cheir-lo e ele ficou coando-lhe a cabea. Toni temeu que ele notasse o funcionamento do motor do caminho 
sem que visse algum  cabine. H pessoas que observam tudo. O rosto de Borges apareceu. Aps um sculo de um minuto o padre seguiu o seu caminho.
       Toni viu Borges acenando e seguiu at o caminho. Mas no entrou na cabine. Vinha uma mulher de meia-idade, que caminhava olhando para o cho. Esperou-a passar. 
Depois abriu a porta e subiu para a cabine. Borges recuara, cedendo-lhe o lugar. Sentiu-se num plano elevado, como se olhasse a praa do segundo andar de um edifcio.
       - Por que demorou, paspalho?
       - No viu o padre?
       - Vamos sair logo daqui! Engate a marcha! - ordenou Borges.
       Mas Toni encontrou dificuldade, O nervosismo atrapalhava tudo. Engatou a marcha e o caminho movimentou-se, pesado, bufando. A primeira curva, fechada, quase 
o arremete contra um poste. O padre cruzou a rua diante deles como uma imagem que os perseguisse.
       - Calma, boy, calma - dizia Borges.
       - No sou puxador de caminhes.
       - Vai se dar melhor na estrada. Vire  direita. E nada de furar sinal vermelho.
       Toni respirava forte, tentando governar suas aes. Viu um retrato de criana no painel: "Boa viagem, papai". Outra imagem que se fixava aos seus olhos como 
a do padre. J lera que nos momentos de tenso pequenos detalhes se apegam  percepo como vespas. O menino da foto era louro e segurava um chocalho. Borges fingia 
que no, mas se preocupava com as barbeiragens do parceiro.
       - Calma, boy...
       - Nunca dirigi caminho. Voc que me meteu nessa.
       - Um pouco de msica te far bem - disse o homem, ligando o rdio. Era uma msica romntica, arrastada, que cantava um amor perdido. Borges procurou outra. 
Sintonizou um rock. Acabou mudando de idia. Desligou.
       Toni dirigia curvado sobre o volante, temendo que um motorista de sua idade despertasse suspeitas. Ansiava por um refrigerante gelado. No apenas sua boca, 
todo o seu corpo estava seco. E morria de calor.
       - At agora tudo bem, boy. Voc j est domando este rinoceronte. Sinal vermelho, v brecando.
       Um guarda de trnsito, postado no meio da avenida, olhou fixo para o caminho.
       - E agora? - quis saber Toni.
       - No olhe pra ele. Relaxe... Agora v saindo devagar.
       No foi desta vez.
       - Estamos longe da estrada?
       - Indo pela direita, a gente chega logo. L  s pisar no acelerador e mais nada.
       Toni s ouvia palavras, sons. O pensamento voltara-se para sua me, em Vila Grande, e para Virgnia. Temia mais o julgamento delas que o da prpria Justia. 
Viu-se no parlatrio de um presdio tentando explicar a elas como cara naquela armadilha.
       - A estrada - anunciou Borges.


34. UM INTERURBANO PARA VILA GRANDE

       Dona Amlia passava pelo living quando tocou o telefone, Interurbano. Ouviu uma voz jovem, de moa.
       -  da casa de Silvano?
       - Sim, mas ele est na transportadora.
       - Ligo  noite. Diga que Raquel telefonou.
       Por uma antena invisvel, dona Amlia captou o dio ou ressentimento do filho. No pde silenciar.
       - Aqui  a me de Toni - disse.
       - Ah, a me de Toni? Muito prazer. Ele... est bem?
       - Acha que poderia estar?
       - Minha senhora, eu no tive culpa.
       - Como no te...
       - Eu gostava dele. Quer saber? Gostava muito. Queria me casar com ele. Mame e papai tambm gostavam. Mas ele me enganou... Disse que vendia carros, quando 
na verdade roubava.
       - Isso no  verdade, menina. Meu filho no roubou carro algum. Quem roubava era aquele rapaz do bar.
       - Ora, dona, dona...
       - Ele foi ludibriado!  um rapaz muito honesto!
       - Eu sei que para uma me  duro admitir que o filho rouba. Entendo isso. E posso at estar enganada. Mas no quero mais saber dele.
       - Oua, menina...
       - Nem o nome dele quero ouvir. Ele me fez sofrer muito. Pode imaginar como fiquei diante de meus pais? Chorei um dia inteiro.
       - Garanto que meu filho...
       - A senhora no estava com ele em So Paulo e no sabia o que ele andava fazendo. Mas no quero falar mais disso. Est tudo acabado. E no esquea de dizer 
a Silvano que liguei. Boa tarde!
       Raquel bateu o fone. Dona Amlia ficou com o telefone ainda mais tempo. Disse:
       - Toni no  ladro, menina...
       Dona Amlia s despertou ao ouvir a voz do marido. Vou fazer uma pequena viagem. Negcios. Precisa de alguma coisa?
       - No, obrigada.
       - Volto amanh ou depois.
       Como de outras vezes no houve abraos de despedida. Ele simplesmente pegou sua maleta e saiu. J nenhum sentimento restava entre os dois. E dona Amlia no 
lamentava. Aguardava apenas um telefonema de Toni para tomar uma grande deciso em sua vida. Por que ele no ligava? Onde estaria?


35. A ESTRADA

       A noite caa sobre a estrada como um cobertor felpudo. Apenas dez metros de seu leito eram visveis sob o jato frio dos faris. No havia vaga-lumes nem estrelas. 
Toni dirigia no mais completo slncio. Palavras no amenizariam seu drama. A seu lado, Borges fumava: ele era apenas uma brasa trmula de cigarro na cabine.
       Subitamente o homem voltou-se para trs.
       - Parece que estamos sendo seguidos.
       - O que?
       - Vem um carro da policia a. Pegue uma entrada, depressa, a primeira que aparecer - ordenou Borges, descontrolando-se.
       - No vai adiantar.
       - Faa o que eu mando.
       - Nos pegaro de qualquer maneira.
       Borges segurou a direo.
       - Entre por a, entre...
       Toni resistiu, mantendo-se na estrada.
       O carro da polcia emparelhou com o caminho, depois o ultrapassou. O rapaz e o homem da mancha preta respiraram fundo.
       - Voc estava certo - admitiu Borges.
       - Quase ps tudo a perder.
       - Dou a mo a palmatria, boy.
       - Parece que no leva muito jeito pra essa profisso.
       Borges riu:
       - Meu sonho era ser locutor de rdio. Agora me diga: voc est estreando mesmo?  marinheiro de primeira viagem?
       - De primeira e de ltima.  bom pr isso na cabea.
       Borges, impressionado com a segurana de Toni no caso do carro policial, comentou:
       - Pena que pense assim. Eu, com esses olhos, precisaria de um parceiro fixo. Ganharamos pencas de dinheiro.
       - J estamos chegando a Campinas.
       - Continue na estrada. Vamos uns dez quilmetros alm. At aqui foi moleza, no? E vai ser at o fim. Esse  um negcio seguro. O mal de Juliano foi a ostentao. 
Era incapaz de esconder os lucros. Vivia dando bandeira, soltando foguetes. Estrepou-se.
       Toni fixava a estrada. A cada quilmetro percorrido aproximava-se o fim do pesadelo. Estava agora menos tenso e dirigindo mais solto. J imaginava seu reencontro 
com Virgnia e o grande abrao que lhe daria. Quanto a Borges...
       - Estamos chegando - disse o puxador. - Logo estaremos com o dinheiro no bolso, boy.


36. VIRGNIA: DVIDAS

       Virgnia no tinha encontro marcado com Toni mas seu pensamento continuava fixo nele. Estava muito estranho no ltimo encontro. Lembrando, parecia-lhe evidente 
que escondia alguma coisa. Se fosse algo banal, no o preocuparia tanto. Decidiu passar pela penso.
       - Como vai, dona Jlia?
       Virgnia j morara na penso e conhecia bem a proprietria, sua ex-confidente.
       - Aquela gracinha do seu namorado no est - disse ela. - Saiu cedo. Foi passear com um amigo.
       - Amigo? Que eu saiba ele no tem nenhum.
       - Eu tinha ido ao supermercado e o vi entrar num carro.
       - Viu o tal amigo?
       - Vi e o reconheci porque esteve na penso uma vez perguntando por Toni.  forte e tem uma mancha preta no rosto.


37. UMA OFICINA SUSPEITA

       Toni dirigia agora por uma estrada estreita, no-asfaltada. A seu lado, Borges mantinha os olhos fixos na janela: no devia conhecer muito bem aquelas paragens.
       - Entre nesse terreno - ordenou.
       Toni fez o caminho entrar num terreno espaoso, dominado por uma casa de madeira, comprida e estreita, parcialmente iluminada. Alguns carros de marcas e 
portes diversos aglomeravam-se ao fundo. Viu alguns homens vestindo macaces. Um enorme co recebeu o veculo latindo.
       Um homem muito alto, tambm de macaco, aproximou-se. O que chamou a ateno de Toni foi seu enorme nariz.
       - Voc  o Borges? - perguntou.
       - Borges sou eu - identificou-se o homem da mancha preta, j descendo do caminho.
       Toni tambm desceu.
       O narigudo ps-se a examinar o produto do roubo, enquanto informava:
       - Sou o Dino.
       - Lembro de voc - disse Borges. - J estive aqui uma vez. Que tal o bicho?
       - Parece em boas condies. Quem  seu amigo?
       - Toni, um bom motorista.  de confiana, sossegue. Acha que o comprador vai aprovar?
       - Bem, ele  exigente, mas espero que sim.
       - Quando ele vem?
       - J st a caminho. Vamos l pra dentro tomar uma cerveja.
       Os trs entraram na casa, uma construo precria, dividida em cmodos que ladeavam um comprido e escuro corredor. No fim, havia uma ampla cozinha. Dois homens 
estavam l.
       - Estes so altamente especializados - apontou Dino. - Depois duma maquiagem, nem o prprio dono reconhece o carro.
       Os dois riram.
       - A gente faz o que pode - disse um deles.
       - Chegou um caminhozinho - informou o narigudo. - Vo l dar uma olhada.
       - Caminho? - admirou-se um deles.
       - E dos bons. - E explicou a Borges e Toni: - A polcia anda muito atenta nas estradas. Ns somos os nicos que estamos lidando com caminhes na regio.  
um risco maior, mas o lucro compensa. - Retirou uma cerveja da geladeira. - No houve problema com vocs?
       - Foi uma brincadeira - disse Borges.
       - Foi mesmo? - Dino perguntou a Toni, que no respondeu. - Em dois dias espero maquiar o caminho.  perigoso ficar com ele aqui. Os caminhoneiros andam se 
unindo... forando a polcia.
       - Ento s voc est trabalhando com caminhes?
       - Por enquanto, sim, Borges. Quando a coisa aperta, s os mais peitudos permanecem.
       Borges virou seu copo.
       - Como estava precisando de um gole!
       - Imagino - disse Dino. - Pena que pegaram o Juliano, no? Comprei alguns carros dele. Apenas servio leve. Um tipo divertido.
       - Ele facilitou - lamentou Borges. - A mania de ostentao!
       - Vai ficar alguns anos fora de circulao.
       - Fale do fregus - pediu Borges.
       - Um velho conhecido. J comprou uma dzia. Mas ele no vai querer conhecer vocs. Cara importante.
       - Paga na hora?
       - Claro, e em dinheiro. Nesse ramo no se assina nada. Assinaturas j levaram muita gente para a cadeia. Beba, rapaz.
       Toni tomou um gole de cerveja.
       - Est nisso h muito tempo? - perguntou o narigudo.
       - No estou nisso - respondeu Toni, seco.
       -  um amigo de Juliano - Borges apressou-se. - No trabalha nisso habitualmente.
       Pela janela os trs viram a luz de faris de um automvel que entrava no terreno.
       -  o fregus! - disse Dino. - Pontualidade britnica. D gosto trabalhar com gente assim. Com licena. - E saiu.
       Borges pegou outra cerveja na geladeira.
       - Viu como  fcil? Agora  s receber e voltar para casa numa boa.
       - A polcia nunca descobriu esse desmanche?
       - Alguns policiais esto na folha de pagamento de Dino. Isto  uma empresa. Ele sabe lidar com todo mundo. Um grande tipo.
       Toni sentia-se mal ali. Tomou meio copo de cerveja. Sua impresso era de que a polcia poderia aparecer a qualquer momento. Como era possvel queles homens 
viverem sob tal tenso constantemente? E vendo Dino, com sua cara e jeito de homem de negcios, quem diria que estava ali um intermedirio da compra de carros roubados? 
Borges contou que muitas vezes Dino tambm comprava os carros e os vendia. E que era proprietrio at de fazendas na regio.
       - Uma pessoa que eu respeito.
       - Respeito no  o sentimento que ele me inspira.
       - Tem um filho que estuda no exterior, graas aos carros roubados. Mas no se admire muito, boy. No  o nico caso. H muitos Dinos por a.
       Toni foi  janela e viu o ptio iluminado por uma lmpada solitria, rodeada por uma nuvem circulante de insetos. Perto do caminho algumas pessoas o examinavam. 
Um homem bem-vestido, mais ao escuro, participava da vistoria.
       Algum tempo depois Dino reaparecia na cozinha com ar satisfeito.
       - Negcio aprovado. Vamos para o escritrio.
       O escritrio, um cmodo contguo  cozinha, tinha apenas uma escrivaninha, uma pequena estante e duas cadeiras. Dino sentou-se e abriu uma gaveta.
       - Fazia tempo que no via a cor do dinheiro - disse Borges.
       -  a cor mais bela do mundo! - exclamou Dino, pondo sobre a escrivaninha um mao de notas. - Aqui est o pagamento. E sem desconto do imposto sobre a renda. 
Contem, por favor.
       Toni nem se mexeu. Borges contou o dinheiro detidamente.
       - Confere - disse. - Vocs so honestos.
       - Agora podem ir. Ramiro leva vocs pra Campinas. Certo?
       - Certo - concordou Borges.
       Depois Dino olhou seriamente para Toni.
       - Voc  novo no negcio, mas espero que no seja dos que abrem o bico. Voc nunca esteve aqui, nunca ouviu falar deste lugar, no conhece nenhum Dino, no 
sabe de nada. Entendido?
       Toni e Borges voltaram  cozinha para esperar o homem que os levaria a Campinas.
       - Vou lhe dar a sua parte - disse Borges.
       - Que parte?
       - Voc no trabalhou, boy? Quem trabalha recebe.
       - D minha parte a Juliano.
       - Mas alguma coisa voc pode levar. Quanto?
       - Nada.
       - Disse nada?
       - Disse.
       Um dos homens de macaco entrou na cozinha.
       - Conduo para Campinas! - anunciou.
       Toni e Borges acompanharam Ramiro atravs do corredor e chegaram a uma das extremidades do ptio. Andaram at um velho jipe que os levaria a Campinas. Ao 
lado estava estacionado um belo Mercedes, com certeza do comprador do caminho. Toni olhou-o curiosamente.
       - Vamos. Nunca viu um Mercedes? - perguntou Ramiro.
       Claro, Toni j vira centenas. Inclusive um que tinha a mesma placa. Entrou no jipe.


38. VOLTA A VILA GRANDE

       Ramiro deixou Toni e Borges na rodoviria de Campinas. Tinha uma sria recomendao a fazer:
       - Vocs conhecem o Dino - disse. - Se um dia forem apanhados e abrirem a boca...  j aconteceu a outros, devem saber.
       - No  preciso ameaar - respondeu Borges. - No conheo Dino algum a no ser um guarda do reformatrio.
       - Assim est timo, maninho. E boa viagem.
       Borges encaminhou-se ao guich de passagens.
       - Compre uma s - disse Toni.
       - No vai para So Paulo?
       - No.
       - Vai pra onde?
       - Visitar parentes a uns cem quilmetros daqui.
       Borges comprou a passagem. Um nibus estava de saida.
       - At outro dia - disse.
       - No haver outro dia, Borges.
       - Isso a gente resolve depois, boy.
       Toni encrespou:
       - Se me procurar outra vez, eu o denuncio  polcia.
       - Bancando o valente?
       - Estou prevenindo, Borges. O que tem a fazer  me esquecer. Saia do meu caminho.
       Borges sorriu, mas era o sorriso dos derrotados.
       - Voc no  o nico que dirige caminhes. Juliano saber que ganhou nota 10 de comportamento.
       Assim que Borges entrou no nibus, Toni foi ao guich e comprou uma passagem para Vila Grande.


39. O REENCONTRO

       Toni chegou a Vila Grande muito cedo. A pequena cidade estava envolta numa nvoa gostosa. quela hora da manh dona Amlia ainda estaria dormindo. Entrou 
numa leiteria para um copo de leite e po com manteiga. H tempos que no sentia sabores to puros. Saiu da leiteria, passou pelos colgios onde estudara, reviu 
a casa de Raquel e parou diante daquela, modesta, onde vivera quando seu pai estava vivo. Nem soube quanto tempo ficou a olhar para ela.
       Chegou  quase-manso do senhor Antero. Tocou a campainha do porto. Divina veio de dentro da casa e ao v-lo se ps a chorar sem abrir o porto.
       - Toni...  o Toni! - exclamava como se quisesse convencer-se da realidade.
       - Abra logo esse porto, Divina! No quer me dar um abrao?
       Divina abriu o porto com dificuldade e depois lhe estirou os braos. Desta vez, sentindo-a, Toni, sem esperar, deixou escapar uma lgrima, ele que no era 
choro. No imaginava que gostasse tanto daquela gorducha cheia de afeto.
       - Voc no avisou sua me?
       - Surpresa no  melhor? Ela j levantou?
       - Est na copa. Vamos.
       Toni e Divina entraram na casa.
       - Dona Amlia, veja quem chegou!
       A me de Toni apareceu precipitadamente no corredor e voou em direo ao filho:
       - Toni! Oh, Toni...
       No pode haver prazer maior que o de voltar para casa, pensou o rapaz ao abraar a me, sob os olhares comovidos de Divina. Para prolongar aquela delcia 
juntou as duas num s abrao e beijou-as. Assim dava tempo para dona Amlia, refazendo-se da surpresa, poder dizer alguma coisa alm de "Toni! Toni!" Foi uma festa 
a trs toda feita de sorrisos e lgrimas.
       - Voc voltou para sempre? - perguntou Divina.
       - Eu e mame vamos conversar sobre isso.
       Divina enxugou as lgrimas na manga do vestido e disse:
       - Vou fazer um belo almoo pra voc. Conversem  vontade.
       Dona Amlia conduziu o filho at um banco de pedra diante da piscina. Sentaram-se de mos dadas.
       - Ainda nem acredito que voc voltou. Foram tempos difceis pra mim.
       - Minha vida tambm no foi nenhum mar de rosas. Mas vai melhorar. Seu Antero est viajando?
       - Divina lhe contou?
       - Supus, me.
       - Viajou ontem, no sei pra onde. Nunca diz. Toni, est disposto a ficar aqui? Decidiu voltar mesmo?
       Toni apertou mais a mo de dona Amlia.
       - No, me. Voltei apenas pra uma visita.
       Dona Amlia tambm tinha algo importante a dizer:
       - Se for embora, iremos juntos.
       - Me, deixar esta manso, este conforto todo, por minha causa?
       - No  uma deciso momentnea. Ela j est tomada. Pedirei divrcio.
       Apesar da voz firme e resoluta que ouviu, Toni ponderou:
       - A vida na capital  muito cara. No temos dinheiro pra dois.
       - Eu trabalhava antes de casar com seu pai e trabalhei depois que ele morreu. Alm disso, fiz economias, empreguei dinheiro e tenho algumas jias de valor.
       - Coragem voc tem.
       - S mudaria minha deciso se Antero tambm mudasse em relao a voc. O que no me parece possvel. - E preferindo trocar de assunto, perguntou: - Ainda 
tem sofrido por causa de Raquel?
       - Raquel? Nem lembro que existe. Estou namorando uma moa muito melhor que ela. Chama-se Virgnia. Uma estudante que trabalha pra pagar os estudos. Me, estou 
apaixonado!
       Dona Amlia gostou da novidade.
       -  por isso que est com um aspecto to bom!
       - Ser que estou? Com esse sono? Mame, queria dormir um pouco. Ainda tem um quarto pra mim?
       - Claro! O seu quarto est como quando o deixou. Vamos.
       Foram at o quarto. Toni emocionou-se ao entrar.
       - Meus livros! Vou dar uma olhada neles.
       Subitamente dona Amlia mostrou certa preocupao. Meu receio  de que o Antero o trate mal.
       - Ele no tratar.
       - Tem tanta certeza disso?
       - Tenho.
       - Faria as pazes com ele?
       - No.
       - Meu filho, est me escondendo alguma coisa?
       - Agora quero dormir, me!
       Dona Amlia saiu e Toni olhou palmo a palmo aquele quarto to confortvel e comparou-o  quitinete de tio Waldo, ao escritrio do Paradise e aos quartos de 
hotis onde passara as noites. Jogou-se na cama como estava, vestido, e bastou fechar os olhos para dormir.
       Apenas horas mais tarde Toni acordou. Precisou de alguns instantes para lembrar-se onde estava aps a viagem. Mas no quis rememorar episdio algum. L estavam 
os livros de seu pai. Pegou carinhosamente um deles. Robinson Cruso. Quantos prazeres da infncia Toni devia quelas pginas! Despertou, porm. Os momentos eram 
de deciso, estava vivendo o hoje. Levantou-se.
       No corredor Toni encontrou uma pessoa que se assustou ao v-lo. Toni no levou susto algum. Seguro de si.
       Silvano:
       - Ah... est de volta?
       - Vim visitar minha me. Soube que andou  minha procura em So Paulo.
       - Andei, sim. Soubemos daquele caso do seu tio e depois o do tal Juliano, o puxador de carros. Meu pai ficou com receio de que acabasse nos comprometendo.
       - Ora, por qu? O nome de seu pai est acima de qualquer suspeita. O honesto seu Antero!
       - Pensamos tambm que pudesse estar necessitando de ajuda.
       - Muito generoso, Silvano. Mas no precisei.
       - A polcia est  sua procura?
       - No momento anda muito ocupada com ladres de caminhes.
       Sem novas perguntas, Silvano afastou-se. Evidentemente no gostara do encontro. O que se passava com Toni?
       O almoo, como Divina prometera, foi preparado no capricho, suculento. Seu Antero no voltou da viagem e Silvano no apareceu. Foi um almoo feliz, em que 
Toni falou de seu emprego na livraria, no plano de trabalhar numa editora e... do namoro com Virgnia. Apenas referiu-se com tristeza, saudoso, ao tio Waldo, preso 
em So Paulo.
       -  um malandro, sem dvida, mas no o esqueo. Gostaria de poder fazer alguma coisa por ele.
       - Acha que vai continuar na cadeia por muito tempo?
       - Penso que no. Ele no cometeu nenhuma falta grave. Perto do que se pratica hoje  um santo. O problema dele era sobreviver. Pobre tio Waldo!





40. PONDO TUDO EM PRATOS LIMPOS

        tarde, sem avisar a me, Toni dirigiu-se  Transportadora Mercrio. Logo  distncia viu os caminhes da empresa, enfileirados. Alguns estavam sendo carregados. 
Aproximou-se e ficou espiando. Antero j chegara de viagem. L estava ele a falar em voz bem alta, a um grupo de empregados, sobre a aquisio de mais um caminho. 
Comprara usado e chegaria no dia seguinte.
       - Pretendo comprar mais dois at o fim do ano - dizia.
       Toni procurou colocar-se no ngulo de viso do padrasto. Queria que ele o reconhecesse. Isso aconteceu logo. Antero viu-o e fez cara feia. Bem feia mesmo. 
Seguiu at ele com aquela sua firmeza.
       - Ah, voc voltou!
       - Voltei ontem.
       - Temos muito que conversar, mocinho. Vamos para o escritrio.
       Toni acompanhou o padrasto ao interior do estabelecimento. Ao entrarem no escritrio, todo reformado e imponente, o chefo pediu  secretria que se retirasse, 
pois tinha assunto particular para tratar. Antes tomou um copo de gua gelada.
       - J que voltou, ter que aceitar minhas condies - comeou a dizer. - No ter mais as regalias que lhe havia prometido. Vai trabalhar como anotador de 
entradas e sadas dos caminhes, sob as ordens de Silvano. Quanto aos seus estudos, no intervirei mais. Problema seu. Se quiser estudar, que pague o colgio com 
seu ordenado. Mas se nos causar mais embaraos...
       Toni, que continuava de p, impassvel, respondeu com a maior naturalidade:
       - Agradeo o emprego, mas no preciso dele.
       A resposta irritou Antero, que comentou com dio visvel:
       - Continua o mesmo, no?
       - J tenho emprego - disse Toni.
       - Espero que desta vez seja coisa decente.
       - Mais decente do que aquele que eu teria aqui.
       Era uma ofensa; Antero no deixou passar.
       - O que est dizendo, moleque?
       Toni viu o grande momento aproximar-se.
       - Posso ser mais claro. Depois do que soube seria constrangedor para mim trabalhar na Mercrio.
       Antero no suportou ficar sentado. Levantou-se. Parecia partir para a agresso. Toni, ao contrrio, continuava calmo.
       - Depois do que soube?
       - Foi o que eu disse.
       - Soube o qu?
       Toni fez uma pausa. O lance era seu e poderia retard-lo quanto quisesse.
       - A respeito da transportadora.
       - O que  que voc soube? Vamos, diga!
       Mais pausa, calma para Toni, inquietante para Antero.
       - A frota  feita de caminhes roubados.
       Antero foi todo sacudido por uma corrente eltrica. At seus cabelos se revolveram. Tentou manter o equilbrio, que se desfez num grito.
       - Roubados? Meus caminhes? Onde ouviu isso? Est louco?
       - No ouvi de ningum - respondeu Toni no mesmo tom controlado de voz.
       - Ento como faz uma declarao to leviana? Exijo explicao.
       - No  preciso exigir. Sua frota  toda roubada. Inclusive esse caminho que acaba de adquirir.
       - Mas isso  uma calnia!
       Toni notou que a gravata do padrasto, sempre to bem colocada, saira do lugar. Agora passava a lngua sobre os lbios ressecados pelo nervosismo.
       - Eu que dirigi o caminho de So Paulo at a oficina de desmanche dum tal Dino, perto de Campinas.
       - Oficina de desmanche? No conheo nenhuma oficina de desmanche.
       Toni tinha mais uma bomba em seu arsenal. Soltou-a.
       - Eu vi o senhor l ontem  noite.
       - Est sonhando.
       - O senhor foi com o Mercedes. Pagou em dinheiro.
       Antero ensaiou um sorriso. No foi alm de uma contrao labial para rebater a acusao.
       - Pelo que ouvi voc  que  ladro de caminhes. Acaba de confessar. Disse que dirigiu um caminho at l, no disse?
       - Disse - confirmou Toni. - Fui com um homem que roubou o caminho. Chama-se Borges, conhecido de Dino. Borges sofre de fotofobia e no pode dirigir nas estradas. 
Tive de dirigir, sob ameaa. Se me negasse, seria delatado como parceiro de Juliano, um rapaz que conheci, ladro de automveis.
       Agora Antero conseguiu rir.
       - Suas boas companhias!
       - Eu no sabia que Juliano era um puxador at que o prenderam. Mas no dirigirei mais caminhes roubados. - E revelou: - Estou disposto a contar tudo  polcia, 
bem como revelar onde  a oficina do Dino.
       Antero lentamente voltou  sua poltrona. Havia um resto de gua no copo, tomou-o. Ele, que raramente fumava, acendeu um cigarro. Seu olhar perdia-se no espao 
do escritrio. Toda a sua habitual arrogncia evaporava-se.
       - Voc no teria coragem de procurar a polcia - disse.
       - No tive, at ontem, mas, para livrar-me de um chantagista como Borges, terei. Informando sobre Dino, pouco ou nada me aconteceria. Sendo ru primrio, 
nem ficarei detido - disse Toni com uma segurana ainda maior.
       Antero impressionou-se.
       - Voc nem calcula o risco que correr na polcia.
       - Estou disposto a correr qualquer risco para no ser mais envolvido por esses puxadores. - E como quem quisesse encerrar o assunto: - J expliquei por que 
no quero trabalhar aqui. Isso, sim, seria arriscado.
       Toni j seguia para a porta, quando ouviu:
       - Esse Borges mencionou o meu nome?
       - No, ele no o conhece.
       - E Dino, mencionou?
       - Tambm no - respondeu Toni.
       Antero deu mais uma ordem, menos autoritrio.
       - Sente-se, vamos conversar.
       - Acho que j nos dissemos tudo. Se quer saber se contei essa histria para minha me ou para Silvano, saiba que no.
       - Sente-se. Insisto. Preciso lhe dizer umas coisas...
       Toni hesitou, mas sentou-se, advertindo:
       - No  necessrio me explicar nada.
       Antero usou um tom de voz confessional e melanclico.
       - J enfrentei situaes difceis na empresa, Toni. No tinha dinheiro para expandir os negcios e havia muitos concorrentes. Gente que tinha mais capital 
para investir. Se no ampliasse a frota, teria de fechar as portas. Por isso fui forado a comprar alguns caminhes do Dino. A princpio nem sabia que eram roubados... 
Acredita?
       - Como disse, no precisa me dar explicaes.
       - Queria que soubesse como aconteceu. Mas no sou o nico que compra carros ou caminhes roubados. Apenas comprei alguns. Quer um caf?
       - No, obrigado.
       Novo tom de voz, mais amigvel, meio suplicante:
       - Gostaria que viesse trabalhar conosco.
       - J tenho emprego, seu Antero.
       - Sua me sofreu muito com a sua distncia. Ela o prefere aqui. Os empregados tambm gostam de voc.
       - Eu sei, mas no vou ficar.
       - Espere, Toni. - Dessa vez o padrasto o chamou com intimidade. - No vou lhe dar simples emprego de apontador. Depois de Silvano e de mim, ser o primeiro 
na empresa. Ter timo salrio. E parte nos lucros.
       Toni no se alterava, apenas ouvia. Mas teve de responder:
       - Tomei minha deciso, seu Antero.
       Antero partiu para a splica, baixando a cabea sobre a escrivaninha. O chefo desaparecera.
       - Toni, eu no vou viver eternamente. Silvano e voc so meus herdeiros. Um dia ser scio da Mercrio.
       - Obrigado, mas no vai dar.
       - Ponha os ressentimentos de lado. Esquea o passado. 
       - J falamos tudo, seu Antero.
       Antes que Toni sasse, o padrasto perguntou:
       - Voc j sabia que o caminho seria comprado por mim, fez tudo de caso pensado?
       - No sabia de nada - disse Toni. - Foi o acaso. s vezes ele est do lado da gente.
       Silvano entrou, logo estranhando a atmosfera do escritrio.
       - Desculpem, vou sair... 
       Toni adiantou-se.
       - Pode ficar, Silvano. Eu e seu pai j nos entendemos.
       - Pense no que disse - props Antero ao enteado.


41. UMA DECISO DEFINITIVA

       Toni deixou a transportadora aliviado, mas com a impresso de que j se demorara demais em Vila Grande. Saudade de Virgnia? Chegando em casa, foi at o quarto 
da me. Bateu na porta.
       - Onde esteve, filho?
       - Na Mercrio.
       - Antero chegou?
       - Chegou e conversamos.
       - Ele o tratou mal?
       - Estava uma flor. At me ofereceu emprego. Mas vou embora.
       Dona Amlia olhou-o seriamente.
       - Est mesmo resolvido?
       - Estou sim, me.
       Ela passou a mo ternamente sobre os cabelos do filho.
       - Iremos juntos, Toni. Vou me divorciar de Antero. Direi isso a ele assim que chegar.
       Antero no demorou. Surgiu, nervoso, e foi procurar dona Amlia. Ela, no quarto, fazia as malas.
       - Amlia! - exclamou. - O que est fazendo?
       Muito calma, ela respondeu:
       - Vou embora com Toni. Espero que nosso divrcio seja amigvel.
       - Amlia - implorou Antero, - no se precipite. Eu perdo Toni e lhe dou um alto posto na empresa. J falei com ele sobre isso. Ser meu herdeiro, como Silvano. 
E gozar de todas as regalias. Desfaa essas malas...
       Dona Amlia continuou seu trabalho.
       - No entendo por que mudou to rapidamente de idia, Antero, mas seja qual for o motivo eu e Toni j tomamos nossa deciso.
       - Pensem na vida miservel que levaro em So Paulo...
       - Conseguirei trabalho. J passei dificuldades outras vezes.
       - Aqui seu filho est seguro, no se desencaminhar.
       - Confio no carter dele.
       - Vocs esto loucos?
       - Lamento, Antero. Partiremos amanh cedo.
       -  a ltima palavra?
       - A ltima.
       Antero saiu do quarto. Deu alguns passos e parou como se alguma idia terrvel o tivesse detido.


42. A HORA DA VERDADE

       No dia seguinte, Toni levantou-se cedo e foi para a copa tomar seu caf com leite. As coisas mais simples, feitas por Divina, tinham um sabor especial.
       - H um ano que no tomava um caf com leite assim, gorducha.
       - Tem tambm queijo e gelia, como antes - disse Divina.
       - Pode me servir tudo o que quiser.
       Silvano entrou na copa e sentou-se ao lado de Toni. Parecia incumbido duma misso, no muito  vontade.
       - Bom dia.
       - Bom dia, Silvano.
       Silvano nem esperou pelo caf de Divina.
       - Meu pai me pediu para conversar com voc.
       - Ah, sim?
       - Ele quer que o convena a ficar.
       - No perca seu tempo, Silvano. Embarco hoje para So Paulo.
       - Acho que est sendo precipitado.
       Toni tomou um bom gole de caf com leite. Fez uma pergunta embaraosa:
       - A que atribui a insistncia de seu pai?
       - Ele tem um grande corao. Quer que fique.
       - Eu sei. Ofereceu-me at um alto posto na firma. Mas no posso aceitar.
       Silvano assumiu um tom mais ntimo e tocou num assunto que lhe era doloroso.
       
       -  por causa de meu namoro com Raquel? No tive inteno de lhe tirar a namorada.
       Toni, ao contrrio, gostou que ele tocasse no assunto.
       - Voc no teve culpa alguma. Esquea. Volto pra So Paulo por outro motivo.
       - O que diz sua me disso? - quis saber Silvano.
       - Ela est de acordo. Tanto assim que vai comigo.
       - Como, vai com voc?
       - Vai se divorciar de seu pai.
       - Vai?
       - Deciso dela, no lhe pedi isso.
       - Meu pai no me falou nada.
       - Porque no sabia. Agora j deve estar sabendo.
       Silvano fez um ar desanimado.
       - Bem, cumpri meu dever. Agora faa o que quiser. Espero que no se arrependa um dia. Ah, quer que lhe d uma carona para So Paulo? Estou mesmo precisando 
ir at l.
       - Obrigado, iremos de nibus.
       Toni ergueu-se e foi encontrar a me no living. Dona Amlia tinha algo a esclarecer:
       - Antero me disse que lhe garantiu um bom posto na empresa. Logo abaixo de Silvano.
       - Ele lhe disse tambm que recusei?
       - Disse. E estranhei muito sua mudana de atitude. Quase implorou para que ficssemos. Parece haver um mistrio nisso.
       Toni achou que ainda no era o momento das revelaes.
       - Ele mandou um emissrio para me convencer. Silvano. Tive de decepcion-lo.
       - Sua resistncia eu entendo, Toni. O que me surpreende  essa reviravolta na cabea de Antero.
       - E quanto a voc? Est mesmo decidida?
       - Minhas malas esto prontas.
       - Me, no gostaria que se divorciasse apenas por minha causa.
       - J no suportava viver aqui, filho. Acho que sentirei saudades apenas de Divina.
       Dona Amlia voltou para o quarto onde estavam suas malas empilhadas. Antero estava l.
       - Conversou com Antnio?
       - Silvano tambm conversou, pelo que Toni me disse.
       - Por favor, reflitam mais um pouco.
       - Estamos de sada, Antero.
       - Vocs esto cometendo um grande erro.
       -  possvel.
       - De qualquer forma estarei sempre a seu dispor. Surgindo um problema, me telefone. Mas no vamos nos despedir. Detesto despedidas. Faamos como se fosse 
uma breve separao. - Antero caminhou at a porta e parou. - Quero que aceite um presente meu.
       - No  preciso.
       - Para mim  importante. Um carro. Eu o deixarei na porta. Os documentos esto no porta-luvas.
       - Obrigada, Antero, mas...
       - Insisto para que voc aceite...
       Dona Amlia permaneceu no quarto tentando solucionar aquele enigma. Por que o frio e severo Antero ficara to diferente, amolecera tanto, depois de seu encontro 
com Toni? Talvez o filho explicasse durante a viagem. Foi at o quarto dele. Toni empacotava os livros de seu pai.
       - Livros, escova e pasta de dente - disse Toni. -  o que levarei desta casa.
       - Agora vai comear uma parte muito dolorosa - lembrou ela. - Despedirmo-nos de Divina.
       - Passei pela cozinha e ela j estava chorando.
       - Vamos.
       Foi uma longa cena muda. Ningum dizia palavras. S abraos e lgrimas. O corpanzil de Divina tremia de tanta emoo. No final, ela pediu:
       - Quando puderem, me chamem. Nada me prende a Vila Grande. No tenho mais nenhum parente aqui.
       - Se tudo der certo - prometeu dona Amlia, - no esqueceremos de voc.
       Carregando malas, me, filho, Divina e um criado seguiram at o porto. O presente de seu Antero estava estacionado. Um belo carro prateado. Era praticamente 
novo.
       - Podem colocar as malas - disse dona Amlia. -  nosso.
       - Como nosso? - estranhou Toni.
       - Presente do Antero - explicou dona Amlia. - Foi uma gentileza, no?
       Toni sacudiu a cabea.
       - No devemos aceitar.
       - Toni, ficaria at feio recusar.  melhor nos separarmos amigavelmente.
       Toni fincou o p.
       - Tenho uma razo forte para no aceitar.
       - Mas que razo forte  essa?
       - Contarei no nibus, me.
       - No  mera teimosia sua?
       - Garanto que no - asseverou Toni. - Vamos pegar um txi at a rodoviria.
       Silvano aproximou-se.
       - Pretendia lhes dar uma carona at So Paulo, mas precisei levar meu carro pra oficina.
       - Por que no vai nesse? - perguntou Toni. - Seu pai quis nos dar, mas no vamos aceitar.
       - Voc deve estar bem de vida para recusar um presente desses.
       - V com ele, Silvano.
       - Os documentos esto no porta-luvas - disse dona Amlia.
       Silvano olhou o interior do carro, tentado a viajar nele.
       - Preciso antes falar com meu pai.
       - Vou lhe telefonar para agradecer - disse Toni. - Direi que voc partiu com ele.
       Silvano abriu a porta do carro.
       - Ento no querem mesmo?
       - No queremos.
       Era a confirmao que Silvano queria ouvir. Para ele, Toni no merecia tal presente.
       - Felicidades para vocs - desejou, j entrando no carro.
       Toni seguiu para o interior da casa, dizendo  dona Amlia:
       - Meu padrasto precisa saber que no aceitamos o carro. Vou ligar para o escritrio.
       Ligou para a transportadora.
       - Por favor, chame seu Antero. Diga que  o Toni.
       - Logo em seguida ouvia seu nome.
       - Antnio?
       - Sim, seu Antero. Agradecemos muito o carro mas no vamos ficar com ele.
       - Posso saber por qu?
       - Porque no. Como disse, agradeo.
       - No seja to orgulhoso, rapaz.
       - No  orgulho.
       - Em So Paulo  bom ter conduo prpria.
       - Eu sei, seu Antero, mas est decidido.
       O padrasto fez uma pausa e props:
       - Ento use-o apenas para ir a So Paulo. Depois o mandarei buscar em seu endereo.
       - Muito gentil, mas o carro j no est conosco.
       - Est onde?
       - Silvano viajou com ele.
       - O qu?!
       - O carro dele est na oficina e no ficou pronto.
       - Ento ele foi com o carro?
       - Foi.
       - No  possvel...
       - O que o senhor disse? Al! Al!
       Antero j havia desligado.
       Toni voltou para a rua. Um motorista de txi carregava o porta-malas. Voltou-se para a me:
       - Ele levou o maior susto quando soube que Silvano viajou com o carro.
       - Por que o susto?
       - Sei l, me!


43. 0 ACIDENTE

       Assim que o nibus partiu, dona Amlia pediu a Toni a explicao que ele devia:
       - Voc disse que tinha um motivo forte para no aceitar o carro. Qual  o motivo?
       Toni respondeu de uma forma enigmtica.
       - Eu no podia aceitar nada, me, para no me tornar cmplice dele.
       - Cmplice de qu?
       - De roubo de caminhes, me.
       - O qu?
       - Toda a sua frota foi feita de caminhes roubados. Sei disso e disse a ele, ontem.
       - Voc disse?
       - A que a senhora atribui a mudana dele em relao a mim? Num minuto me oferecia emprego de mero apontador do movimento de caminhes. Noutro, o terceiro 
lugar na empresa e me fazia um de seus herdeiros. Como recusei o cargo, ofereceu o carro para manter-me calado. Espcie de suborno.
       - Caminhes roubados! - exclamava dona Amlia, ainda no convencida. - Mas como soube disso?
       - Vi o Mercedes dele numa oficina clandestina de desmanche em Campinas, de um tal Dino, que compra e vende carros roubados.
       - Quando isso?
       - Anteontem.
       - E o que voc tinha ido fazer l, Toni?
       - Fui dirigindo um caminho roubado, justamente o que ele acaba de comprar.
       Dona Amlia mexeu-se no banco. No entendia.
       - Voc foi dirigindo o caminho roubado?
       - Me, esta  uma histria que precisa ser contada desde o comeo, a partir do momento em que tio Waldo foi preso e tive de trabalhar num bar da moda chamado 
Paradise. L que conheci Juliano, o gerente, que se tornou o piv desta novela toda.
       - Continue, Toni. Quero saber tudo. Preciso estar bem convencida do que afirma. Para mim parece inacreditvel. Antero metido com caminhes roubados! Ele que 
sempre se mostrou um modelo de honestidade para todos!
       Toni fez questo de ser minucioso. Havia muito tempo e estrada pela frente. Dona Amlia no o interrompia, imaginando a cada lance todo o sofrimento do filho. 
Finalmente ele chegou ao dilogo com o padrasto no escritrio, relembrado palavra por palavra.
       - Entendeu, me, por que no podamos aceitar o carro?
       - Entendi.
       - No agi certo?
       - Agiu, mas eu no podia adivinhar. Ainda estou desnorteada. Tudo parece muito irreal.
       A essa altura o nibus parou. O motorista e alguns passageiros dos primeiros bancos desceram.
       - Deve ter havido algum acidente - observou dona Amlia.
       Toni olhou tambm pela janela.
       - H um restaurante a. Vamos tomar um refrigerante. Os passageiros esto descendo.
       Toni e dona Amlia desceram do nibus passando por um grupo crescente de curiosos que cercavam um carro de passeio espatifado de encontro a um muro. Ouviram 
uma sirene de ambulncia. Comentava-se que o carro vinha em alta velocidade, como se no pudesse brecar.
       - Alguma vtima? - perguntou dona Amlia a um dos passageiros do nibus.
       - Um rapaz.
       Toni olhou, reconhecendo o veculo acidentado.
       - Me, este no  aquele carro que...
       Subitamente me e filho viram um luxuoso carro brecar e dele sair Antero, precipitadamente. Enquanto corria, gritava:
       - Silvano! Silvano! - Aproximou-se do filho quando era levado para a ambulncia.
       Toni deu uns passos apressados e aproximou-se do padrasto, que ouvia um enfermeiro dizer:
       - Algum cortou os freios do carro. Mas Deus estava por perto. Ele no morreu.
       Antero ento viu Toni e dona Amlia logo atrs dele. Eles apenas o olharam em silncio.
       Toni voltou ao nibus seguido de sua me. Acomodaram-se nas poltronas.
       - Voc acha que?... - perguntou dona Amlia.
       - Foi um desastre preparado. Por isso ele se espantou tanto quando eu disse que Silvano viajara com o carro.
       - Mas por que Antero ia querer a nossa morte?
       - A minha morte, me. Seu medo era de que algum dia eu o acusasse do roubo dos caminhes.
       Durante o resto da viagem, chocados, me e filho nada disseram. Toni j se concentrava na arriscada deciso que tomaria depois de se instalarem na capital.


44. ENFRENTANDO A SITUAO

       Toni conseguiu um quarto para dona Amlia na penso onde morava. Na segunda-feira foi trabalhar normalmente enquanto ela visitava joalherias para negociar 
suas jias. Apurou bom dinheiro. Somado com o que j tinha, rendendo juros, poderia at abrir uma pequena loja.
        noite, Toni e dona Amlia jantaram num restaurante com a presena de uma convidada especial.
       - Me, esta  Virgnia. No  uma gata? Linda?
       - Ela  uma graa! Muito bonita! - exclamou dona Amlia.
       Virgnia, na verdade, estava bem produzida, uma atriz de TV.
       - Ela que me ajudou a agentar a barra!
       Virgnia simpatizou imediatamente com a me de Toni, mas continuava intrigada.
       - Voc teve um encontro com aquela pessoa?
       - O homem da mancha preta?
       - A dona da penso viu voc entrar no carro dele.
       - Sim, Virgnia, tivemos um encontro. O primeiro captulo duma novela que minha me j ouviu e que voc vai ouvir agora. O nome da simpatia  Borges, provavelmente 
falso. Ele me obrigou a dirigir um caminho roubado.
       Com as mesmas mincias da narrao anterior, feita  sua me, Toni contou  Virgnia tudo o que lhe acontecera, incluindo o terrvel dilogo com o padrasto 
e concluindo com o desastre na estrada.
       Virgnia, atenta, j preparava uma pergunta:
       - O que pretende fazer agora?
       - Apresentar-me  polcia e denunciar a oficina clandestina de Dino. Quanto ao padrasto, Dino que denuncie, se quiser.
       - Vai dizer que conduziu o caminho?
       - Por que no?
       - E se a polcia no acreditar em voc?
       - Tambm  meu receio - comentou dona Amlia.
       Toni no ignorava o perigo.
       - Tenho de correr o risco.
       Virgnia  dona Amlia:
       - A senhora concorda?
       - Morro de medo - confessou. - Mas irei  polcia com Toni.
       Virgnia, que sempre apoiava o rapaz, disse firme:
       - Irei tambm.
       Toni sorriu para desanuviar e porque a refeio estava chegando:
       - Na pior hiptese irei fazer companhia a tio Waldo. Ando com muita saudade dele. Que tipo!


45. CARA A CARA COM JULIANO

       No dia seguinte, Toni, dona Amlia e Virgnia dirigiram-se  delegacia. Um delegado sisudo e dois detetives ouviram as declaraes que Toni fez em tom aparentemente 
calmo. Procurou ser claro, objetivo, mas sem referir-se ao padrasto.
       - Pode explicar direito onde  esse desmanche?
       - Posso at fazer um mapa.
       O delegado pediu a Toni que voltasse s trs da tarde. Os detetives partiriam imediatamente para Campinas.
       Na hora marcada Toni, a me e a namorada voltaram  delegacia. Desta vez houve uma longa espera.
       Afinal o delegado apareceu.
       - Confirmado - foi dizendo. - Prendemos Dino e meia dzia de homens. Era o maior desmanche clandestino da regio. Desmanchavam at nibus. Uma bela caa. 
Quanto ao tal Borges foi facilmente identificado devido  mancha preta.  um sentenciado na condicional. No ir longe.
       Um grande alvio para o trio.
       Dona Amlia:
       - Ento podemos ir, doutor?
       - Voc no est livre ainda, rapaz - disse o delegado. - Prestou um servio, mas no posso consider-lo inocente. Quero saber mais de suas ligaes com esse 
caso. Volte amanh s dez e sozinho.
       - Por que, doutor?
       - Quero fazer uma acareaao.
       - Acareao? Com quem?
       - Juliano Boa-Pinta. Se no comparecer ser considerado fugitivo.
       Os trs deixaram a delegacia preocupados.
       - Minha liberdade est nas mos de Juliano - disse Toni.
       - Nas mos de um bandido - acrescentou Virgnia. Aguardava os trs uma noite de insnia. Dona Amlia tomou mais de uma dose de calmante.
       Na manh seguinte, Toni compareceu  delegacia. Teve de ficar numa sala com um escrivo enquanto aguardava o antigo companheiro do Paradise, o mgico dos 
coquetis.
       Algum tempo depois entraram na sala o delegado, os dois detetives e Juliano. L estava ele, em trajes comuns, ainda um pouco o Boa-Pinta. Sorria enigmaticamente 
para Toni.
       - Ol! - cumprimentou.
       - Ol! - respondeu Toni.
       O delegado fez a primeira pergunta:
       - Conhece esse rapaz, Juliano?
       Uma pequena pausa.
       - Conheo. Era garom do Paradise.
       - Morou no seu apartamento?
       - Eu lhe dei cama fofa e comida quente. E lhe ensinei a preparar coquetis. Um deles chamava-se "Buuuu", lembra-se, Toni? Era um susto gostoso.
       - Voc lhe emprestava os carros?
       - Tenho grande piedade dos pedestres. Como sofrem!
       Uma pergunta decisiva:
       - Trabalhavam em parceria?
       Juliano riu.
       - Do que est rindo? - perguntou o delegado.
       - Pensei em duplas caipiras. Sempre as detestei. No acho graa alguma nelas.
       - Vamos, responda. Trabalhavam juntos?
       - No tinha talento,  coisa que vem do bero.
       - Seja claro, trabalhavam?
       - O bom Toni no tinha a menor vocao, conheo as pessoas.
       Outra pergunta aps um tempo para o escrivo terminar de anotar:
       - Mas ele sabia que roubava, no?
       Juliano sentia algum prazer em fazer pausas que afligissem Toni.
       - Se sabia? No sou de soltar a lngua. Ele s ficou sabendo quando a coisa estourou, quando houve o rebu no apartamento.
       O delegado no se dava por convencido.
       - E no caso do roubo do caminho, o que tem a dizer?
       - Bem... Falei dele pro Borges. Disse que era bom de volante e que sabia dirigir at caminhes. Borges  meio cegueta. No pode com faris na estrada. E anotou 
o nome de Toni. Mas no fui eu quem ps o garoto nessa fria. Tudo idia de Borges, podem crer.
       O delegado voltou-se para Toni.
       - Onde aprendeu a dirigir caminhes?
       Toni podia complicar-se a.
       - Apenas disse a Juliano que seria capaz de dirigir at caminhes. O que levei pra Campinas foi o primeiro.
       O delegado dirigiu-se aos detetives.
       - Podem lev-lo.
       Toni lanou um olhar de agradecimento a Juliano, que antes de abandonar a sala disse:
       - Se um dia passar pelo Paradise tome um "Saudade de Elvis Presley" por mim.


46. FINAIS E NOVOS COMEOS

       Pelos jornais, no muito tempo depois, Toni ficou sabendo da priso de Borges. Metido noutro roubo de carro, resistira ao cerco policial e fora baleado. Toni 
temeu que ainda pudesse envolv-lo, mas isso no aconteceu.
       Mas a notcia grossa mesmo saiu quando Dino foi forado a fornecer um listo de nomes de pessoas que compravam seus carros e caminhes roubados. Seu Antero 
ganhou uma manchete com retrato e biografia. Soube-se depois que no foi preso, por ser ru primrio, porm perdeu toda a sua frota, que foi devolvida, e gastou 
o que tinha com advogados. Por fim, desapareceu de Vila Grande, desacreditado. Quanto a Silvano, dona Amlia localizou-o num hospital e ligou para ele. Permaneceu 
meses engessado. Mas a ex-madrasta no lhe revelou que fora vitima duma tentativa de assassinato equivocada. Feliz como estava, e cheia de planos, no desejava vingar-se 
de ningum.
       Certa noite, numa danceteria, Toni estava junto  caixa para pagar sua conta quando lhe tocaram no brao.
       - Como vai, Toni?
       - Raquel!
       - Ol! Fiquei sabendo duma histria horrvel sobre o pai de Silvano. Comprava caminhes roubados. Meus pais se escandalizaram.
       - Muita gente ganha dinheiro desonestamente.
       - Parecia uma pessoa to distinta.
       - S aparncias.
       - Soube tambm, no Paradise, que se livrou daquelas acusaes.
       Como se no ouvisse, Toni perguntou:
       - E de Silvano, tem notcias?
       - Sofreu um acidente grave. Mas o que havia acabou.
       - Silvano nada sabia dos roubos do pai. Sei em que hospital est. Por que no lhe telefona?
       - No - respondeu Raquel prontamente. - Melhor deixar pra l. Estou aqui numa mesa com amigos. A gente est se divertindo. Venha comigo.
       A esta altura da conversa, Virgnia aproximou-se.
       - Esta  Virgnia, minha namorada.
       - Muito prazer!
       Raquel mal pde balbuciar seu "muito prazer
       Toni afastou-se com Virgnia.
       - Pobre Silvano - disse. - Raquel nem quer saber dele!
       - Como se sente depois de v-la?
       - Como quem vira a ltima pgina dum livro desagradvel. Vamos. Amanh tenho uma entrevista. Acho que arranjei novo emprego.
       Com o dinheiro dos investimentos e das jias, dona Amlia abriu uma pequena butique. Virgnia, doida para livrar-se do Paradise, foi trabalhar com ela. E 
ajudou-a tambm na escolha duma casa. Morar na penso no dava mais.
       - Mas, trabalhando na butique, no vai sobrar tempo pra cuidar de mais nada - comentou dona Amlia com Toni. - Precisamos de uma empregada.
       Ambos tiveram instantaneamente a mesma lembrana:
       - Divina!
       No foi fcil localizar Divina em Vila Grande. A residncia de Antero havia sido vendida. Telefonaram para diversas famlias da cidade e nenhuma soube dar 
informaes. Apelaram at  Prefeitura, onde, por sorte, algum sabia da cozinheira. Trabalhava agora num hotelzinho. Trs dias depois de um contato, Amlia e Toni 
a esperavam na rodoviria. Aquela gorducha desorientada era ela!
       - Estamos aqui, Divina!
       Foi uma choradeira geral, mas lgrimas de felicidade secam depressa.
       Divina no conhecia So Paulo nem qualquer outra cidade maior que Vila Grande. Se saa  rua, ficava tonta. Mas logo se acostumou e apaixonou-se por escadas-rolantes. 
Para ela, ir aos shoppings era o mximo.
       Toni deu-se bem na editora, prximo da fonte dos livros, sua paixo. Escrever um, talvez as experincias de sua atribulada juventude, passou a ser sua meta 
e sonho. Quanto ao namoro dele com Virgnia  coisa para ser contada em versos, longos poemas, material para letra de msicas. Em prosa no d para expressar um 
amor to curtido e bonito.
       Ia tudo muito bem quando ficou ainda melhor. Certa manh tocaram a campainha da casa. Divina foi atender e no soube dizer quem era. Toni foi  porta e levou 
aquele susto. No era possvel!
       - Esqueceram a porta da gaiola aberta - disse o desconhecido.
       Que desconhecido que nada! Era Waldo. J cumprira a pena e fora posto em liberdade.
       - No acredito no que estou vendo! - exclamou Toni.
       - Acredite depressa e me sirva um caf.
       - Caf? Voc vai ser nosso hspede permanente, seu velho malandro. Mas diga como foi que nos encontrou.
       - Encontrei o tal Borges na cadeia. Ele disse que voc trabalhava numa livraria. Fui l, no o encontrei, mas me deram a dica. Agora quero abraar a cunhada.
       Dona Amlia chorou ao rever Waldo, a quem passara a estimar muito depois de ouvir de Toni as aventuras que haviam vivido. Virgnia logo declarou que ele era 
o velhote mais simptico e amalucado que conhecera na vida. Quanto  Divina, adorou-o.
       Waldo instalou-se no quarto de Toni, mas logo se cansou de no fazer nada. Foi trabalhar na butique, onde se revelou hbil fazedor de pacotes e jeitoso com 
a freguesia. s vezes ia com Toni a algum salo de sinuca. Continuava bom de taco.
       Toni, dona Amlia e Virgnia geralmente lembravam os lances dramticos que ele vivera.
       - H uma coisa que sempre me intrigou - disse o rapaz, uma vez. - Aquela grande coincidncia.  verdade que a vida est cheia delas, mas quando acontece com 
a gente...
       - Est falando de qu, Toni?
       - Do fato de Borges ter me levado justamente  oficina onde Antero comprava os caminhes. Na ocasio ele era o nico que negociava com caminhes, na regio, 
mas mesmo assim...
       - Parece uma histria inventada - comentou Virgnia. Dona Amlia iniciou um sorriso, que tomou a forma de uma pergunta:
       - E quem pode negar que Deus tambm inventa suas histrias? Imaginao Ele j provou que tem...
       



2
